Sheyla Juruna: a voz que não se cala no Xingu diz, “Não acredito que o final vai ser assim”

Maíra Irigaray  [ecoreserva]

s-juruna-2Sentada na varanda de uma casa que não é sua; com lágrimas nos olhos que transcendiam uma dor profunda Sheyla desabafou, “eu sofri muito e ainda sofro… não acredito que o final vai ser assim…” .

Mulher, filha; mãe; guerreira; amiga e companheira, muitos a viram lutar e clamar por justiça pelos direitos dos povos indígenas; mas poucos sabem do peso da luta que ela carrega no peito sozinha.

Sheyla Juruna; do povo Juruna da aldeia Boa Vista do município de Vitória do Xingu no Pará nasceu e se criou em sua comunidade: “Foi minha vó mesma que fez o parto da minha mãe. Com muita honra eu digo que o meu umbigo esta enterrado na minha terra.” Esta mesma terra e a garantia do seu território é uma das razões de sua luta. “A nossa terra é a nossa vida”, afirma.

O povo Juruna foi  um povo sofredor que de fato não é nem originalmente do território em que hoje se encontra. Eram de outra terra no Rio Iriri e por conta de conflitos com não-indígenas, foram expulsos de suas terras e levados até Vitória do Xingu, onde hoje se encontram. Sheyla garante que apesar de não ter vivido esta parte da história, como sua mãe e sua avó viveram, ela e seus filhos vivem hoje as consequências dela.

No quilômetro 17 da rodovia PA-415 os Juruna vivem há 70 anos. Por todos esses anos lutam pela regulamentação da terra que nunca aconteceu por descaso da FUNAI e do Governo Federal, como ela ponta. Os Juruna eram inclusive dados como extintos; por isso se uniram, se organizaram e mostraram ao mundo que, não só existiam, mas também resistiam. “Não é fácil ser um povo indígena e viver e sobreviver numa região como a de Altamira, no Xingu e na Amazônia como um todo. Digo isso porque os povos que vivem na chamada “Amazônia Legal” são povos muito massacrados; que sofrem muito pelas consequências de grandes empreendimentos que só trouxeram discórdia e destruição para o nosso povo.”

Durante os últimos anos de luta, Sheyla conquistou a audiência nacional e internacional. Viajou o mundo para contar a história dos povos impactados por Belo Monte. Por conta disso Sheyla virou alvo e perdeu o seu lugar de liderança. Da mesma forma muitos líderes que lutaram contra Belo Monte e não se “venderam”, vivem hoje consequências drásticas, resultado de sua resistência.

Em uma conversa íntima, Sheyla revelou seus medos e frustrações que como amiga prefiro não mencionar. O que posso sim garantir é que esta mulher indígena e guerreira definitivamente nunca acumulou um centavo por todo seu trabalho; mas é uma das pessoas mais dignas que conheci em minha vida.  Ali chorando eu a vi cansada, e sua tristeza encheu meu coração com lágrimas. Me dei conta do quanto podemos ser egoístas e me senti envergonhada. Lembrei-me de todas as vezes que ela viajou a pedido de pessoas e organizações para divulgar a luta e me perguntei  aonde estariam essas pessoas agora que ela mais precisa.

Apesar da dor, ela esclarece: “tudo o que eu estou sofrendo hoje é com consciência de que essa luta não era pessoal. Não era tentando crescer usando o nome do meu povo; nem tentando me beneficiar com nada; mas a gente precisa ter o mínimo de dignidade na vida.”Sheyla vive hoje em uma casa abandonada da prefeitura que era escola na sua comunidade. De fato, se a prefeitura quisesse poderia tira-la dali a qualquer instante.

Os índios Juruna do Km 17 estão entre as populações indígenas mais drasticamente afetadas por Belo Monte, pois vivem na margem da rodovia e estão sendo duramente prejudicados pelo aumento de tráfego que a obra provoca. A Norte Energia prometeu casas, mas nunca terminou de construí-las. Já a Funai havia determinado como condicionante, a demarcação do território e também a aquisição de novas terras para eles, que são essenciais, mas a Norte Energia se recusa a cumprir a condição que deveria ser prévia `a, segundo o Ministério Público Federal.

Enquanto isso, Brasil afora, o povo enganado e ignorante (no sentido de não saber mesmo), acredita que empreendimentos como Belo Monte significam progresso ao país e não enxergam o valor dos ensinamentos que nos deixam as populações indígenas e tradicionais.

Sheyla faz questão de frisar que “o que desenvolve não destrói. Hoje a gente olha para o lado e não vê mais a floresta e sim fazendas. Estão destruindo tudo para desenvolver o que? Quer dizer que a pessoa não desenvolve? Nós, povos indígenas não desenvolvemos deste jeito. Pra mim o governo brasileiro é um governo ditador porque não escuta seu povo nativo e que além disso quer nos dizimar sem nenhum escrúpulo; sem piedade.”

Apesar da aparência cansada, ela parece não se cansar de repetir com força as coisas pelas quais acredita e luta. Por isso quis entender de que lugar tirava esta mulher tanta força. Sem dar rodeios e com segurança em sua voz ela me respondeu que o que lhe dava mais força era saber que lutava por uma causa justa. Mesmo sabendo disso, não podia conter as lágrimas quando descrevendo o significado de Belo Monte para seu povo: “Belo Monte é um grande câncer no nosso Xingu, que esta consumindo e destruindo aos poucos o nosso povo. Não tem nada pior do que matar um povo estando ele vivo; matar ele aos poucos”.

Uma grande pausa silenciosa se fez neste momento e nós duas choramos caladas.

Lembrei então de seu filho menor, que brincava na rede enquanto conversávamos. Pensei nas muitas vezes que ele havia ficado para trás enquanto em nome de uma luta, ela viajava então lhe perguntei sobre o que sentia pelo futuro de seus filhos. Sabiamente, Sheyla me recordou que os povos indígenas lutam não por si mesmos, mas pelo futuro de suas gerações; coisa que a população em geral não pensa. “Eu vejo a história que esta sendo traçada para a Amazônia e para os povos indígenas e me preocupo muito pelos meus filhos; porque o que eu vivi eles não vão poder viver; a nossa história; a nossa cultura, nossa terra, nossa vida que pra gente é sagrado. Os grandes empreendimentos trazem toda essa perda.”

Ao terminar nossa conversa, pedi para que ela deixasse registrada sua mensagem ao mundo. Sua mensagem para aqueles que acreditam que grandes projetos desenvolvimentistas como o de Belo Monte trazem progresso.

Assim, Sheyla conclui:

“O mundo esta cego, pois ele não se preocupa com o próximo. Olhem para todos e todas com olhar de humanidade e não com o olhar capitalista. As pessoas só pensam em lucrar. O mundo precisa acreditar e defender mais a vida. O planeta depende dos rios vivos para viver; depende das florestas. Ninguém sobrevive sem água. Como é que as pessoas não enxergam isso? Belo Monte significa destruição e morte dos povos indígenas do Xingu. Ainda assim, se pensam que Belo Monte esta nos vencendo e de que forma, eu digo não; Belo Monte não esta nos vencendo. As paredes de Belo Monte não vão nos vencer porque eu tenho consciência de que tudo isso um dia vai se acabar. Um dia a nossa voz terá que ter valor. Um dia o governo brasileiro terá que respeitar os povos que são os donos deste território chamado Brasil”, concluí.

 


Maíra Irigaray é advogada Internacional de Direitos Humanos e Meio Ambiente. Mestre em Direito Comparado pela Universidade da Florida. Atualmente Coordenadora de Campanha de reforma das Instituições Financeiras Internacionais para a Amazon Watch e Coordenadora da Frente “Bancos” para o Movimento Xingu Vivo para Sempre.

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