Apenas 6% dos brasileiros apoiam “desenvolvimento” que atropele direitos indígenas

Rogério Tomaz Jr.[Conexão Brasilia Maranhão]

[Dedico esse post especialmente a todos os defensores acríticos de Belo Monte e do modelo energético predominante no Brasil]

Surpreendente a pesquisa da Fundação Perseu Abramo, com apoio do Instituto Rosa Luxemburgo, que foi divulgada hoje (terça, 22), a respeito de como a população brasileira enxerga as questões indígenas.

Apenas 6% dos entrevistados – que compõem um universo de 2006 pessoas, representando estatísticamente a população brasileira – concordam totalmente com a frase “O mais importante é o crescimento do país, mesmo que, para isso, os indígenas tenham que sair das suas terras”.

Outros 8% concordam em parte com esta ideia, que traduz muito bem o pensamento dominante acerca do “desenvolvimento” que leva “civilização” a áreas que (alguns supõem) ainda vivem no “Velho Oeste” ou no “século XIX”.

Cada um pensa como pode ou quer. A maior parte da sociedade brasileira, felizmente, não concorda com a tese exacerbadamente pragmática de que é legítimo violar direitos (no caso, dos povos indígenas) em nome do “progresso” e do “desenvolvimento nacional”.

A diferença entre violar direitos de uma população interna e violar direitos de vizinhos é mínima e a história é repleta de exemplos (atuais, inclusive) como estes, em que grupos internos são reprimidos como preparação para o ataque a “adversários” externos além das fronteiras do Estado nacional.

Voltando à pesquisa (resumo disponível aqui para download), alguns dos principais dados são estes:

– 80% acreditam que existe preconceito contra indígenas;

– 86% concordam (71% totalmente e 15% em parte) que os indígenas protegem mais o meio ambiente do que os brancos;

– 66% acreditam (42% totalmente e 24% em parte) que os indígenas são os verdadeiros donos das terras do Brasil, porque já estavam aqui antes dos brancos chegarem;
– 61% acreditam que há conflitos com os indígenas hoje (destes, 62% acreditam que os conflitos envolvem disputas sobre demarcação e direito à terra);

– 54% entendem que as terras destinadas aos povos indígenas são insuficientes para o seu modo de vida;

– 79% acredita que os indígenas correm risco de perder suas terras;

– 40% avaliam que os grandes fazendeiros representam a maior ameaça aos indígenas;

– 82% concordam (65% totalmente e 17% em parte) que a construção de estradas e de represas para hidrelétricas só deveria ser feita quando essas obras causassem baixo impacto no meio ambiente
– 73% concordam (51% totalmente e 22% em parte) que a construção de estradas e de represas para hidrelétricas nas terras indígenas só deveria ser feita se os índios que vivessem nas áreas inundadas por essas obras concordassem
– 77% acreditam (54% totalmente e 23% em parte) que fazendas e agroindústrias nas terras indígenas só deveriam ser permitidas se os índios concordassem;

– 88% acham que o governo deveria proteger os direitos indígenas;

– apenas 14% defendem (6% totalmente e 8% em parte) que o mais importante é o crescimento do país, mesmo que, para isso, os indígenas tenham que sair das suas terras.
A pesquisa “Indígenas no Brasil: demandas dos povos e percepções da opinião pública” quebra o senso comum e mostra que o preconceito contra os indíos existe e é forte, mas é bem menor do que se supunha. Mais do que isso, a resistência às demandas dos povos que fundaram o que conhecemos hoje como Brasil é menor na sociedade do que no Congresso Nacional, que está a anos-luz de nos representar adequadamente.

Em Belo Monte, para quem não sabe, os índios não foram efetivamente ouvidos a respeito do projeto. As audiências públicas, obrigatórias para empreendimentos que afetem terras indígenas, foram uma farsa. Nas quatro “oitivas” realizadas sobre Belo Monte, NENHUM índio teve a palavra e NENHUMA fala foi feita na língua dos índios.

Isso viola não apenas a legislação brasileira, mas também a Convenção no 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre Povos Indígenas e Tribais. E é por esse motivo que o Brasil está sendo acusado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) de violar direitos humanos dos povos indígenas no projeto de Belo Monte.

Parabéns àqueles que defendem acriticamente Belo Monte. Estão isolados de uma forma que nem a extrema direita consegue ficar (na Câmara, por exemplo, a bancada da ultradireita nas questões de direitos humanos chega a cerca de 10% dos 513 deputados).

Não à toa o vídeo do Movimento Gota d’Água gerou uma repercussão gigantesca e algumas reações hidrófobas. Curioso que o motivo principal para desqualificar o vídeo não foi o seu conteúdo, mas o fato de nele aparecerem alguns garotos e garotas propaganda de José Serra e dos tucanos. Pensamento binário e dogmático dá nisso.

Sigamos.

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