“Todos apenas crianças” – A Chacina em Icoaraci

[Fernando Carneiro]

Chacina segundo as definições mais usuais, disponíveis nos dicionários brasileiros, significa matança, carnificina. O termo, ao menos em seu uso coloquial, se refere ao assassínio de um grupo de pessoas.

Frase de um dos cartazes em homenagem aos 6 jovens chacinados.

O distrito de Icoaraci, em Belém, é carinhosamente conhecido como “vila sorriso”. Um local aprazível com uma orla belíssima aonde se pode comer um delicioso peixe regado a um maravilhoso pôr-do-sol. Mas Icoaraci é mais que isso. É local de trabalho, de uma vasta produção de artesanato marajoara, de pesca, de comércio, de efervescência cultural, de juventude inquieta e ávida por cultura e lazer.
Pois bem, recentemente a “vila sorriso” ganhou as manchetes nacionais e internacionais, não por suas incontáveis belezas ou pelo seu povo acolhedor e trabalhador, mas por ser palco de uma inominável tragédia: seis jovens, crianças quase, todos entre 13 e 17 anos foram covardemente assassinados enquanto conversavam à porta de casa. Dois homens armados obrigaram os jovens a se ajoelharem de frente para o muro de um prédio vizinho. Incontinenti começaram a matar um por um. Tiros na cabeça. Pelas costas. Ao fim do ritual macabro não era apenas a calçada que estava encharcada de sangue, mas os corações de todos que somos pais. De todos que lutamos por uma sociedade justa e sem violência.
No sétimo dia depois da chacina, vários amigos, parente e moradores vizinhos realizaram uma comovente caminhada pelas ruas de Icoaraci exigindo justiça e paz. Ao som de um reggae argentino, que os jovens gostavam de ouvir, a multidão demonstrava, a um só tempo, indignação e revolta.
O fato, por mais trágico que possa ser, e é, não pode ser encarado como um episódio isolado. Dias atrás em Santa Isabel, município próximo de Belém, outra chacina teve lugar. Sete jovens tombaram pelas mãos de “justiceiros”. Em junho outros 2 jovens foram barbaramente executados em Outeiro, vizinho de Icoaraci. As vítimas foram amarradas com pedaços das próprias vestes, cada um levou 3 tiros na cabeça e posteriormente ambos foram degolados.
Mas tão trágico quanto essas chacinas é a chacina diária a que nossa juventude está submetida. Segundo dados oficiais o Brasil ocupa o sexto lugar em um nada desejável ranking de países latino-americanos onde mais se mata jovens. Segundo o coordenador do estudo a taxa de homicídios entre jovens está três vezes acima da média internacional. São quase 53 homicídios por cem mil habitantes, muito acima de países da Europa que tem, em média, 2 homicídios por cem mil habitantes.
É nessas horas que fica evidente que apesar de sermos a 7ª economia do mundo ainda estamos muito distantes do que se considera um “país desenvolvido”. Ocupar o Conselho de Segurança da ONU (paranoia de Lula que Dilma assumiu para si também) não vai nos transformar em país de primeiro mundo, isso para utilizar uma classificação mundialmente aceita, mas nem por isso preconceituosa.
O Pará, segundo o “observatório da violência”, tem algumas das cidades que mais vitima a juventude no país. Marabá ocupa o 4º lugar numa lista de 5.564 municípios brasileiros pesquisados. Ananindeua o 7º, Tailândia o 24º, Parauapebas o 37º, Tucuruí o 47º e Belém o 68º. Seis cidades entre as 70 que mais matam jovens estão em nosso estado. Que futuro é esse?
Uma sociedade pode se medir pela esperança que destina aos jovens. Não é natural que um pai chore a morte de um filho, principalmente se essa morte for violenta.
É chegada a hora (na verdade já passou da hora) de começarmos a discutir soluções efetivas para esses problemas sociais. Quem acha que a violência se combate apenas com policiais nas ruas está redondamente enganado. Não apenas porque nos três casos citados os principais suspeitos são policiais militares ou ex-policiais, mas principalmente porque enquanto os jovens não tiverem oportunidade de desenvolverem suas múltiplas potencialidades esportivas, culturais, musicais e etc, estarão à mercê da desesperança que tanto retroalimenta a violência.
O futuro é hoje. A sociedade não suporta mais tanta impunidade, tanta corrupção. Nossos jovens merecem um mundo melhor. Lutemos por ele hoje ou não haverá amanhã.
 
Fernando Carneiro é historiador e dirigente do PSOL/PA

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20 Respostas para ““Todos apenas crianças” – A Chacina em Icoaraci

  1. Caro Fernando
    Gosto de suas falas, independente do partido a que pertences. Já tive oportunidade de te ouvir em mais de uma ocasião , em um evento do MST, no CEFET em 2010, na audiência popular do movimento Resistencia 55, semana passada e agora, te lendo sobre a chacina de Icoaraci.É preciso que vozes como a tua sejam ouvidas e lidas porque esses meninos acabam sendo abduzidos por conta da invisibilidade social.
    Tanto que as primeiras especulações foram que eram meninos envolvidos em conflitos com a Lei, como se fosse natural a morte de seis crianças.

  2. antes os bandidos viviam escondidos;hoje quem tem q se esconder são as pessoas de bem essa a pura realidade em q vivemos

  3. APENAS CRIANÇAS

    Todos , somente crianças
    que muito pouco sabiam
    do mundo que,velozmente,
    os retirou do convívio
    Crianças, adolescentes
    no ritmo da formação
    que a vida, num de repente,
    deixou prostados no chão
    Todos, apenas crianças
    que seu momento viviam
    trocando as ideias nascentes
    sem vislumbrar o destino
    que se fez,brutal,presente,
    tirando-lhes qualquer ação.
    A morte veio na frente
    de sua evolução

    Ninféia G

    Assistente Social e Poeta-Belém-Pa

  4. Verdadeiramente estamos em uma época de desesperança, a esperança parece que foge de nossas mãos, é preciso encontrar uma maneira urgente de amar as nossas crianças e jovens, acredito que a educação ainda é o melhor caminho não odemos desistir, mas é um fato lamentavel.

  5. E ainda somos obrigados a votar. ABSTENÇÃO JÁ! Pois a violência que tem base na política profissional tende a acabar. A ABSTENÇÃO eleitoral é uma das forças populares para acabar com a violência, pois confronta, e tira a base, daqueles que elaboram e se servem das leis, os quais fazem da violência pão e circo para distrair o povo e manter o status quo. Pense nisso, até porque quem não vota paga os salários dos políticos profissionais.

  6. Se não votando também sou obrigado a pagar salário para políticos corruptos e descompromissados com o povo, então prefiro escolher um político sério, honesto e comprometido com as demandas populares para nos representar. Tem gente boa sim. Esse papo de abstenção só ajuda a colocar todas as pessoas na mesma vala comum da política tradicional. Pensem nisso!

  7. O que preciamos é de vontade politica de trasnformar e isso não se percebe em nossos políticos que são votlados, emg eral, apa seus prorpios interesses, ou de seu a´prtido, ou da posição ideológica de seu aprtido.Tanto que a esquerda é toda desafinada, vários aprtidos que não se entendem uns com os outros, com pensamentos ideológicos arcaicops que os impede de ter uma visão mais ampla,universal sobre os direitos de adolescentes de se rpofissionalziarem. Nãop há politicas nersse sentido, de profissionalização de adolescentes, principalmente entre os 16 e 18 anos incompletos.As instituiç~eos de acolhimento desses meninos em suituação de vulneravilidade social não lhes oferecem projetos pedagógicos e culturais, apenas tv e futebol, em geral.

  8. Desculpem, agora está todo corrigido)

    O que precisamos é de vontade politica de transformar e isso não se percebe em nossos políticos que são voltados, em geral, a seus proprios interesses, ou de seu partido, ou da posição ideológica de seu partido.Tanto que a esquerda é toda desafinada, vários partidos que não se entendem uns com os outros, com pensamentos ideológicos arcaicos que os impede de ter uma visão mais ampla,universal sobre os direitos de adolescentes de se profissionalizarem. Não há politicas nesse sentido, de profissionalização de adolescentes, principalmente entre os de 16 a18 anos incompletos.As instituções de acolhimento desses meninos em suituação de vulneravilidade social não lhes oferecem projetos pedagógicos e culturais, apenas tv e futebol, em geral.

  9. De fato, o que precisamos é de políticas claras e exequíveis para começar a a reverter este quadro drástico e lastimável a que estão submetidas nossas às criança e adolescentes. É verdade, as forças de esquerda ainda são pequenas, mas elas tem sido fundamentais no sentido de enfrentar o debate. Mas para além dos partidos, cabe à sociedade civil organizada apresentar propostas e comprar a briga. Pois senão, ficaremos apenas nos desabafos improdutivos.

  10. É o que estamos todos fazendo aqui, tendo desabafos improdutivos? Acho que não! O simples fato de existir um blog , onde se pode estar externando pensamentos e até sugerindo ações que são obrigações do poder constituido, já se torna altamente produtivo!!!
    E quando digo desafinada é que pecebo em minhasn observações por força dos contatos que faço, dos grupos que que participo, dos eventos onde escuto falas sobre essas situações, é que apesar de vários partidos de esquerda se autodominarem ,todos, de socialistas, fracionam-se dentro deles mesmos em pensamentos diversos, dissidências e assim. o principal, que é a luta pelo melhor estar da população que os elegeu, pela justiça social , não se efetiva de forma a promover algo mais prático e realmente produtivo para promover a reabilitação, reinserção, socialização desses adolescentes.O problema está a nosso redor…

  11. Gostaria de sugerir ao debatedores – que, aliás, estão de parabéns – que façam uma reflexão sobre a proposta de Maquiavel e Karl Marx, no sentido de compreender a quem servem e como estão sendo “utilizados” (pelos políticos profissionais) no atual contexto. Há, entre ambos, convergências quando sugerem a unificação para a luta contra o oponente; e aqui acaba a convergência; Por isso, deve ser ressaltado que, para o primeiro a união é entre os reis, ou elite; para o segundo, entre o povo, ou proletariado. Logo…A “esquerda” se dissolveu nesta tentativa de síntese entre tais pensadores com o desejo de conquistar o poder e mantê-lo. Esquerda verdadeiramente democrática é o povo nas ruas, nas praças. Também gostaria de sugerir as leituras de “A Amazônia e a besta” e “A Amazônia e Maquiavel” em http://www.opirata2.blogspot.com , de preferência com opiniões.

  12. O Luiz Mário foi bem objetivo em sua colocação.Realmente, na tentativa da síntese, o jogo do poder se intrometeu e tem sido mais forte. E nessa utopica ( e eles sabemk disso)tentativa de reorganizar os pensamentos de Maquiavel e Marx, os politicos profissionais( como Luiz Mário sabiamente se refere) se perderam no tempo e no espaço, até porque é algo ,até onde consigo ver, dificil ide acontecer.
    Valeu pelas indicações de leitura e do blog., Luis Mario.

  13. O político profissional sabe muito bem (calcula) o que está fazendo, até porque se serve da ciência para tal propósito, pois já foi dito que “o povo é a matéria-prima da política” e nada melhor que a ciência (e a pseudociência, porque não?) para lidar com esse tipo de “material”. Pense nisso…

  14. Como todos devem saber, a violência é a parteira da história como bem observou Carl Marx, neste sentido, a violência que ocorreu em Icoaraci e está tendo publicidade em todo o mundo deve servir como um divisor de água para se pensar o mundo. Esses assassinatos, não devem ser entendidos como fatos isolados, como afirmou carneiro, mas como a limitação de um sistema que se retroalimenta da barbárie cujos políticos profissionais, na democracia representativa são os grandes timoneiros. Está em gestação a política participativa, mas será que o povo está livre mesmo para este novo momento dentro do mesmo sistema, em que a participação também está sendo conduzida?

  15. Sinderlei, que bom que tens esse otimismo quando te referes que está em gestação a politica participativa! Considerando os 9 meses de uma gestação, um pré natal bem feito, bem
    acompanhado, bem gerenciado e bem orientado, talvez, quem sabe, possamos estar aguardando essa criança forte, sadia,De repente…
    A tragédia de Icoaraci não é isolada, certamente e é pontual porque ,na prática, os adolescentes ,meninos, de 12 a 18 anos incompletos, que estão nas ruas, pedindo, limpando vidros de carro, fazendo malabarismos, e, principalmente , se não forem franzinos e já tenham aquele porte de ” menino maior”, “marmanjo”( como muitos a eles se referem), estão expostos a todo tipo de violencia além dessa presumida que é a exclusão em que vivem seu dia a dia. Se estão em instituições de acolhimento, não são preparados para a vida aqui fora; e se lá não ficam porque precisam de alguma forma ” ganhar a vida”, são bandidinhos em potencial, dos quais as pessoas se afastam ou então fingem que não estão lá.Isso acontece no dia a dia, a gente vê isso acontecer, eu até ,me indisponho com várias pessoas por causa disso, em muitas ocasiões. Os adolescentes do sexo masculino , em nosso contexto social, não são acolhidos por familias substitutas e nem tem como voltar para suas familias originais. Quem fica com eles?É isso, já,uma grande tragédia. As chacinas acabam sendo uma consequencia., uma tragédia maior, literalmente efetivada.

  16. Muito bem observado, Sinderlei porque o que ocorre é a troca de seis por meia dúzia.

  17. meu filho era um dos adolesentes hoje so tenho um vazio no meu coração e esperando a justiça de Deus

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