À Amazônia

[Luiz Mário de Melo e Silva]

As maiores invenções masculinas são a idéia de deus e o dinheiro e ambas são o limite superior a que se propõem, ou seja, representar o idealismo e materialismo. Em cada uma delas está contido o máximo que se pode referir a essas correntes que, aliás, dominam o mundo.

Todavia, tais invenções tendem a ser mecanismo para dominação feminina, pois desta é que surge a vida – algo que jamais poderá ser gerada por um macho -, com o intuito de atrair e subjugá-las e daí tentar controlar a vida.

Ainda que essa proposição encontre raízes profundas e seja considerada como verdade absoluta na sociedade humana (e por isso são as raízes da opressão masculina, obviamente), a mesma não se sustenta quando mulher e natureza (e vice-versa) se confundem e são una. E aqui reside todo sentido de materialismo, porque tanto a mulher quanto a natureza geram matéria em sentido mais exato do termo, ainda que a mulher fique apenas na matéria orgânica (vida humana).

Ora, alguém poderá sugerir que o homem também cria, gera e produz. É verdade. Mas não como e quanto a mulher e a natureza.

O homem, no máximo, dá “vida” a idéias, como algo que surge de seu interior; taí os poetas, os artistas em geral. O resto é transformação da matéria exterior a ele.

As armas, iniciadas na pré-história e culminando na bomba atômica, e o dinheiro – que simboliza o quanto de matéria pode ser contido no bolso ou conta bancária -, são os mais perfeitos exemplos de criação masculina, isto no campo materialista. Já a idéia de deus tende a abarcar o conhecimento, o saber, a ciência por serem passíveis de refutação por sua “natureza” abstrata, advindo daí o idealismo tão bem elaborado pelo gênero masculino.

A criação feminina da vida difere, então, radicalmente de tudo o que foi apresentado pelos homens. E nesse sentido, podemos pensar em materialismo natural e artificial, onde o primeiro é ligado à mulher e o segundo, ao homem, respectivamente. E cada qual com seus respectivos valores.

Tal discussão se dá porque a Amazônia está no centro da disputa mundial por poder, que, em última instância, é poder pelo controle sobre a vida, em geral, no planeta e nela (Amazônia) está contido todo referencial humanista conhecido até hoje, partindo, sobretudo, dos indígenas para ficarmos em apenas um exemplo. Discussão que só foi possível porque algumas fontes de recursos naturais existentes em outras partes do globo terrestre estão se exaurindo e com isso esvai-se o poder daqueles que se pretendem como os donos do mundo – óbvio que é a elite masculina, sobretudo.

E por isso a Amazônia tem o condão de servir de prova real, ou prova dos nove, sobre o que até agora foi colocado como o melhor para a humanidade, principalmente no que concerne à questão de sustentabilidade (eufemismo para o materialismo artificial imposto pela economia capitalista), que se apresenta como referência para sustentar o combalido sistema econômico que ora tenta se segurar na natureza – aliás, há outro porto mais seguro que esta?

Esse retorno à natureza revela o quanto o ser humano está intimamente ligado a ela, ainda que a idéia seja apenas para garantir a “vida” econômica do sistema.

Isso mostra que, embora o ser humano se pretenda como que apartado dela, não há como garantir tal coisa, até porque materialista todos somos, como é a natureza, pois qualquer ser humano viveria sem o idealismo e sua condição metafísica, mas jamais sem o materialismo, natural obviamente, derivado dos alimentos, garantindo que o ser humano é eminentemente materialista. Logo, é a natureza condensada, ou objetivada, nele próprio em toda sua dinâmica que a tudo cria e transforma.

Ora, essa dinâmica poderia afiançar àqueles que só pretendem fazer da Amazônia mais um ambiente de domínio e controle, à semelhança ao que ocorre às mulheres em relação aos homens.

Mas aqui a Amazônia (natureza), como as mulheres, depõe contra aqueles que tendem a tomar para si algo como a verdade absoluta, o centro imutável que deve permanecer como se achava no “princípio das eras”, como é a elite – sobretudo a masculina -, que pretende transformar tudo e todos a seu bel-prazer menos a si, como se fosse algo eterno. Ou seja, parar o tempo, a História, que, embora sejam elaboração humana, à duras penas estariam sujeitas a tais vontades como tem sido demonstrados pelo totalitarismo e coisas do gênero, apenas para garantir a manutenção do status quo.

Portanto, pensar a Amazônia é repensar o modelo elitista, logo, excludente e em que se acham a natureza, a mulher e todos aqueles oprimidos pela equivocada idéia de que o mundo foi “parido” por um macho.

Pois diante da dinâmica natureza, onde a inteligência se apresenta como o seu mais refinado subproduto é preciso garantir essa condição que se acha no materialismo natural – algo tão bem representado pela mulher quando dá a luz a uma vida, onde está contida, com toda implicação filosófica, psicológica e seus congêneres, toda proposta de liberdade (que, aliás, é o sentido da natureza, posto que para ela só há o adiante) e que no ser humano é motivo de angustia. O que demonstra mais uma vez o quanto a natureza está nele e vice-versa.

Assim, o materialismo artificial deve seguir sua proposta de tentar suavizar a penúria do dia a dia, sem cair num sisifismo que tenta manter o elitismo sempre opressivo (existiria outro?), como ora tentam submeter à Amazônia com ideias carcomidas pelo tempo e obsoletas como a construção de barragens no Rio Xingu, para garantir a expansão da, agora fora de uso, velha Revolução Industrial, ocorrida na Europa e que se acha erodindo pelo capitalismo, como resultado de sua exploração desenfreada da natureza pelo único objetivo do lucro.

O mesmo não pode acontecer com a Natureza, a Mulher, a Vida todas elas contidas na Amazônia, como pretendem os monolíticos inventores citados anteriormente. Pois, ainda que insistam em tal absurdo não devem esquecer que a brisa suave, com o tempo, muda a face fria da montanha.

Luiz Mário de Melo e Silva
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI).

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