Samir Amin: Audácia, mais audácia, sempre audácia, para derrotar o capitalismo

Aporrea – [Tradução do Diário Liberdade] Texto do marxista egípcio Samir Amim, sobre o capitalismo em crise a a estratégia para a sua definitiva derrota histórica.

Por que audacia?

1. O capitalismo contemporâneo é um capitalismo de monopólios generalizados. Com isto quero dizer que os monopólios não são já mais ilhas grandes num mar de empresas relativamente autónomas, mas que são um sistema integrado, que controla absolutamente todos os sistemas de produção. Pequenas e médias empresas, mesmo as grandes corporações que não são estritamente oligopólios, estão sob controle de uma rede que substitui os monopólios. Seu grau de autonomia viu-se reduzido ao ponto de se converterem em subempreiteiras dos monopólios.

Este sistema de monopólios generalizados é produto de uma nova fase de centralização do capital que teve lugar durante os anos 80 e 90 nos países que compõem a Tríade (Estados Unidos, Europa e Japão).

Os monopólios generalizados dominam agora a economia mundial. “Globalização” é o nome que deram ao conjunto de demandas mediante as quais exercem o seu controlo sobre os sistemas produtivos da periferia do capitalismo global (periferia percebida como o mundo abaixo da Tríade). Isto não é mais que uma nova fase do imperialismo.

2. O capitalismo dos monopólios generalizados e globalizados é um sistema que garante que estes monopólios gravem impostos sobre a massa de mais-valia (transformada em lucros) que o capital extrai da exploração do trabalho. Na medida que estes monopólios estão operando nas periferias do sistema global, a renda monopólica é renda imperialista. O processo de acumulação capitalista -que define o capitalismo em todas as suas sucessivas formas históricas- é determinado pela maximização da renda monopólica/imperialista que persegue.

Este deslocamento do centro de gravidade da acumulação do capital é a fonte da contínua concentração do rendimentos e a riqueza em benefício dos monopólios, amplamente controlada pelas oligarquias (plutocracias) que governam os grupos oligopólicos à custa da remuneração do trabalho e mesmo da remuneração do capital não monopólico.

3. Isto põe em risco o mesmo crescimento, desequilibrando a fonte de financeirização do sistema económico. Com isto, refiro-me a que o segmento crescente da mais-valia não pode ser investido na expansão e profundamento dos sistemas de produção e por conseguinte o investimento financeiro da mais-valia desmedida volta-se a única opção para sustentar a acumulação sob o controle dos monopólios.

A implementação que o capital realiza em determinados sistemas, permite que a financeirização opere de diferentes modos, gerando:

(i) a subordinação da gestão das empresas ao princípio do “valor das acções”.

(ii) a substituição do sistema de pensões baseado na capitalização (fundos de pensão) por sistemas de distribuição das pensões.

(iii) a adoção do princípio de “intercâmbio de taxas flexíveis”.

(iv) o abandono do princípio sob o qual os bancos centrais determinam a taxa de juros -o princípio de liquidez- e a transferência desta responsabilidade ao “mercado”.

A financeirização transferiu a responsabilidade principal no controle da reprodução do sistema de acumulação a 30 grandes bancos que são parte da Tríade. Os eufemisticamente chamados “mercados” outra coisa não são que os lugares onde se despregam as estratégias dos atores que dominam a cena económica.

Portanto, esta financeirização, que é responsável pelo crescimento da desigualdade na distribuição do rendimento (e a riqueza), gera a mesma mais-valia que a sustenta. O “investimento financeiro” (ou, por melhor dizer, o investimento em especulação financeira) continua crescendo a grande velocidade, sem corresponder com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, que na actualidade está-se convertendo em qualquer coisa fictícia) ou com o investimento na produção real.

O crescimento explosivo do investimento financeiro requer, e alimenta-se, da existência de dívida em todas as suas formas, especialmente da dívida soberana. Quando os governos que estão no poder dizem estar perseguindo a redução da dívida, estão mentindo deliberadamente. Para concretizar a estratégia de financeirização dos monopólios necessita-se o crescimento da dívida, algo que na realidade os monopólios buscam mais que combatem, como um modo de absorver o lucro dos monopólios. As políticas de austeridade impostas para “reduzir a dívida”, tiveram como resultado (tal e como se pretendia) o incremento do volume desta.

4. É este sistema -chamado popularmente neoliberal, o sistema do monopólio generalizado capitalista, “globalizado” (imperialista) e financeirizado (como uma necessidade para a sua própria reprodução)- o que implosiona ante os nossos olhos. Mas este sistema, aparentemente incapaz de derrotar as suas crescentes contradições internas, está condenado a continuar a sua selvagem expansão.

A “crise” do sistema é causada pelo seu próprio “sucesso”. Com efeito, a estratégia despregada pelos monopólios sempre produziu os resultados desejados: os planos de “austeridade” e os chamados planos de corte social (na realidade anti-social) continuam sendo impostos, apesar da resistência e as lutas. Atualmente, a iniciativa jaz em mãos dos monopólios (“os mercados”) e dos seus servos políticos (os governos subordinados às demandas do “mercado”).

5. Nestas condições, o capital monopólico declarou abertamente a guerra tanto aos trabalhadores como aos povos. Esta declaração faz parte da formulação da sentença “o liberalismo não é negociável”. O capital monopólico continuará se expandindo sem reduzir a sua velocidade. A crítica à “regulação” que explico a seguir, é baseada neste fato.

Não estamos vivendo um momento histórico onde a procura de um “compromisso social” seja uma opção possível. Já houve momentos no passado, como o compromisso social durante a pós-guerra entre o capital e o trabalho referente a um Estado social democrático no oeste, o socialismo atualmente existente no leste, e os projetos nacionalistas e populares no sul, mas o atual momento histórico já não é o mesmo. O conflito actual produz-se entre o capital monopólico, e os trabalhadores e a gente que é chamada a se render incondicionalmente. As estratégias defensivas de resistência nestas condições não são efetivas e eventualmente levam mesmo a serem derrotadas. Na guerra declarada pelo capital monopólico, os trabalhadores e os povos devem desenvolver estratégias que lhes permitam situar-se à ofensiva.

O período de guerra social está necessariamente acompanhado pela proliferação de conflitos políticos internacionais e intervenções militares das forças imperialistas da Tríade. A estratégia de “controle militar do planeta” pelas forças armadas dos Estados Unidos e dos seus aliados subordinados da OTAN é, em última instância, o único meio pelo qual os monopólios imperialistas da Tríade podem continuar o seu domínio sobre os povos, nações e estados do Sul.

Ante este desafio da guerra declarada pelos monopólios, quais são as alternativas que se propõem?

Primeira resposta: “regulação dos mercados” (financeiros e doutros tipos)

Esta regulação é uma iniciativa que os monopólios e os governos reivindicam. Contudo, isto é só retórica vazia, desenhada para confundir a opinião pública. Estas iniciativas não podem parar a desenfreada corrida pelo lucro financeiro, resultado da lógica de acumulação controlada pelos monopólios. São, portanto, uma falsa alternativa.

Segunda resposta: um retorno aos modelos da pós-guerra

Estas respostas alimentam uma tripla saudai: (i) a reconstrução de uma verdadeira “social-democracia” na Europa ocidental, (ii) a resurrecção de “socialismos” baseados nos princípios que governaram o século XX, (iii) o retorno a fórmulas de nacionalismo popular na periferia do Sul. Estas saudades imaginam que é possível obrigar a retroceder o capitalismo monopólico, forçando-o a regressar ao que era em 1945. Mas a história nunca permite tais retornos ao passado. O capitalismo deve ser confrontado tal e como hoje é, não como nós desejáríamos que fosse, imaginando um bloqueio na sua evolução. Contudo, estes desejos continuam atormentando uma boa parte da esquerda global.

Terceira resposta: a procura de um consenso “humanista”

Eu defino este piedoso desejo do seguinte modo: a ilusão de que um consenso entre interesses em conflito pode ser possível. Alguns ingénuos movimentos ecologistas, entre outros, partilham esta ilusão.

Quarta resposta: as ilusões do passado

Estas ilusões invocam “a especificidade” e “o direito à diferença” sem se preocuparem com compreender o seu alcance e significado. O passado já nos respondeu as perguntas do futuro. Estes “culturalismos” podem adotar várias formas étnicas ou para-religiosas. Teocracias e etnocracias convertem-se em convenientes substitutos das lutas sociais democráticas que viram esvaziada a sua agenda.

Quinta resposta: a prioridade da “liberdade pessoal”

A gama de respostas baseadas nesta prioridade, considerada o “valor supremo”, incluem entre as suas fileiras os retrógrados defensores da “democracia eleitoral representativa”, que equiparam com a democracia em si mesma. A fórmula separa a democratização das sociedades do progresso social, tolerando mesmo uma associação de fato com a regressão social com tal de não pôr em risco e desacreditar a democracia, reduzida agora ao status de uma trágica farsa.

Mas há variações desta posição até mais perigosas. Refiro-me aqui a alguns típicos “pós-modernos” atuais (como Toni Negri em particular) que imaginam que o indivíduo se converteu já no protagonista da história, coma se o comunismo, que permite o indivíduo de se emancipar da alienação e se converter em protagonista da história, já tivesse sido instaurado.

Está claro que todas as respostas anteriores, incluindo aquelas de direita (como as “regulações” que não afetam a propriedade privada dos monopólios) ainda encontram poderosos ecos numa maioria das pessoas de esquerda.

6. A guerra declarada pelo generalizado capitalismo monopólico do imperialismo contemporâneo não tem nada que temer das falsas alternativas que acabo de perfilar.

E então, o que fazermos?

Este momento oferece-nos a oportunidade histórica de irmos bem mais longe; reclama-nos como única e efetiva resposta uma audaz e atrevida radicalização na formulação de alternativas capazes de mobilizar trabalhadores e povos para se situar à ofensiva e se defender da estratégia de guerra dos seus inimigos. Estas formulações, baseadas na análise do capitalismo atualmente existente, devem enfrentar diretamente o futuro a ser construído, e tirar da saudade do passado e das ilusões da identidade ou o consenso.

Programas audazes para uma esquerda radical

Vou organizar as seguintes formulações sob três ideias centrais: (i) a socialização da propriedade dos monopólios, (ii) a des-financeirização da economia, (iii) a des-globalização das relações internacionais.

Socialização da propriedade dos monopólios

A efetividade da resposta alternativa requer necessariamente do questionamento do princípio da propriedade privada do monopólio do capital. A proposta de “regular” as operações financeiras, o retorno dos mercados à “transparência” para permitir que as expectativas dos “agentes” se convertam em “racionais” e definam os termos de um consenso destas reformas sem abolir a propriedade privada dos monopólios não é mais que uma clara tentativa de confundir uma sociedade ingénua. Os monopólios são chamados a “gerir” reformas contra os seus próprios interesses, ignorando-se o fato de os monopólios manterem mil e um modos de contornar os objetivos destas reformas.

O projeto social alternativo deveria reverter a direção da atual ordem social (desordem social) produzido pelas estratégias dos monopólios, com o propósito de fornecer emprego pleno e estável, garantindo salários decentes ao mesmo tempo que gera a produtividade do labor social. Este objetivo é simplesmente impossível sem a expropriação do poder dos monopólios.

O “software dos teóricos da economia” deve ser reconstruído (em palavras de François Morin) assim como a absurda e impossível teoria económica de que as “expetativas” promovem a democracia porque permitem um maior controle na tomada de decisões económicas. A audácia neste momento requer de reformas radicais na educação para a formação não só de economistas, mas também daqueles chamados a ocupar cargos de gestão.

Os monopólios são corpos institucionais que devem ser geridos consoante os princípios da democracia, em conflito direto com quem santifica a propriedade privada. Apesar de que o termo “bens”, importado da palavra anglossaxónica, é em si mesmo ambíguo porque está desligado do debate sobre o significado dos conflitos sociais (a linguagem anglosaxona ignora deliberadamente a realidade das classes sociais), o termo aqui pode ser utilizado especificamente para denominar os monopólios como parte dos “bens”.

A abolição da propriedade privada dos monopólios deve ter lugar através da sua nacionalização. Este primeiro passo legal é inevitável. Mas a audácia implica neste ponto ir mais ali deste passo legal para propor a socialização da gestão dos monopólios nacionalizados e a promoção das lutas sociais democráticas articuladas neste processo.

Darei um exemplo concreto que poderia incluir nestes planos de socialização.

Tanto os proprietários de terra “capitalistas” (aqueles dos países desenvolvidos) como os proprietários “camponeses” (principalmente do Sul) são prisioneiros tanto dos monopólios que fornecem inputs[1] e créditos, como aqueles de que dependem do processo de transporte e comercialização dos seus produtos. Mas nenhum dos dois grupos tem autonomia real na tomada de decisões. A isto soma-se que a produtividade alcançada é apropriada pelos monopólios que reduzem os produtores ao status de “subempreiteiras”. Face a isto, qual é a alternativa possível?

Os monopólios deveriam ser substituídos por instituições públicas que trabalhem dentro de um âmbito legal como parte da sua forma de governar. Estas instituições deveriam ser constituídas por representantes de: (i) camponeses (os principais interessados), (ii) unidades ascendentes (manufatura de inputs, bancos) e descendentes (indústria alimentar, correntes comerciais), (iii) consumidores, (iv) autoridades locais comprometidas com o meio ambiente e a sociedade (escolas, hospitais, planeamento urbano, habitação, transporte), (v) o Estado (os cidadãos). Estes representantes deveriam ser selecionados de acordo a procedimentos correspondentes ao seu próprio modo de gestão social, por exemplo unidades de produção de inputs geridas por conselhos de administração conformados por trabalhadores diretamente empregados pelas unidades concernentes assim como pelos que estão empregues por unidades de subcontratação. Estas estruturas deveriam estar desenhadas de tal modo que associem a gestão do pessoal com cada um destes níveis, assim como com centros de investigação que busquem uma investigação independente, e tecnologia apropriada. Poderíamos mesmo conceber uma representação dos fornecedores de capital (“pequenos acionistas”) herdados da nacionalização, se o considerarmos útil.

Estamos falando, portanto, de aproximações institucionais que são mais complexas que as reformas de autogestão ou cooperativas conhecidas até o momento. É necessário inventar os caminhos deste processo de tal modo que promovam o exercício de uma democracia verdadeira no manejo da economia, exercício baseado em negociações abertas entre todos as partes interessadas. Requer-se uma formula que vincule sistematicamente a democratização da sociedade com o progresso social, em contraste com a realidade do capitalismo que disocia a democracia, reduzindo à gestão formal da política, com as condições sociais abandonadas ao “comprado” dominado pelo que produz o monopólio do capital. Aí e só aí poderemos falar de uma verdadeira transparência dos mercados, quando estes forem regulados sob formas institucionalizadas de gestão socializada.

O exemplo pode parecer marginal nos países capitalistas desenvolvidos, devido a que os pequenos proprietários de terra e camponeses são só uma pequena proporção dos trabalhadores (3-7%). Porém, este tema é central para o Sul, onde a população rural seguirá sendo significativa por algum tempo. Aqui, o acesso à terra, que deve ser garantido para todos (com a maior equidade possível na sua distribuição) é fundamental para avançar na agricultura camponesa. Esta “agricultura camponesa” não deve ser percebida como sinónimo de agricultura estática” ou “tradicional e folclórica”. O progresso necessário da agricultura camponesa implica uma certa “modernização” (apesar de que este termo é pouco apropriado devido a que imediatamente sugere modernização através do capitalismo). Mais inputs efetivos, créditos, e cadeias de produção e distribuição são necessárias para impulsionar a produtividade do trabalho camponês. As fórmulas propostas aqui têm por objectivo avançar na modernização sob formas e orientadas por um espírito “não-capitalista”, quer dizer, com um horizonte socialista.

Obviamente, o exemplo específico escolhido aqui neste artigo é um dos que necessita ser institucionalizado. A nacionalização / socialização da gestão dos monopólios nos setores da indústria e o transporte, bancos e outras instituições financeiras, devem ser imaginadas com o mesmo espírito, tomando as especificidades das suas próprias economias e funções sociais na constituição dos seus conselhos de administração. Como já se assinalou, estes conselhos devem incluir os trabalhadores da companhia, assim como os subempreiteiros, representantes das indústrias, bancos, institutos de investigação, consumidores e cidadãos.

A nacionalização/ socialização dos monopólios assinalam-nos uma necessidade fundamental como eixo central do desafio que devem encarar os trabalhadores e povos sob um capitalismo contemporâneo de monopólios generalizados. Este é o único caminho para deter a acumulação por despossessão a que nos está levando o controle da economia por parte dos monopólios.

A acumulação dominada pelos monopólios pode ser de fato reproduzida somente se a área sujeita à “gestão do mercado” está em constante expansão. Isto é possível pela excessiva privatização dos serviços públicos (despossessão dos cidadãos), e o acesso a recursos naturais (despossessão dos povos). A extração dos lucros das unidades económicas “independentes” por parte dos monopólios é também uma despossessão (entre capitalistas!) da oligarquia financeira.

Des-financeirização: um mundo sem Wall Street

A nacionalização / socialização dos monopólios deveria abolir o princípio de valor das acções imposto pela estratégia de acumulação ao serviço da renda monopólica. O objetivo é essencial para qualquer agenda que queira escapar do anquilosamento sob o qual nos tem presos a atual gestão da economia. O desenvolvimento de um processo de nacionalização transtorna a financeirização da gestão da economia. Mas estaríamos regressando à famosa “eutanásia da renda” carimbada por Keynes na sua época. Não necessariamente, e com certeza não completamente. Pode fomentar-se a poupança, mas com a condição de que a sua origem (poupanças dos trabalhadores, negócios, comunidades) e as condições dos lucros sejam bem definidas. O discurso da poupança macroeconómica na teoria económica convencional oculta a pretensão do acesso exclusivo ao comprado de capital por parte dos monopólios. O tão telefonema “lucro gerado pelo mercado” não é outra coisa que o meio para garantir o crescimento da renda monopólica.

É claro que a nacionalização / socialização dos monopólios também se pode utilizar para os bancos, no mínimo para os maiores. Mas a socialização da sua intervenção (“políticas de crédito”) tem características específicas que requerem de mais precisão na constituição dos seus conselhos de administração. A nacionalização no sentido mais clássico refere-se unicamente à substituição de conselhos de administração conformados por accionistas privados por outros definidos pelo Estado. Isto permitiria, em princípio, a implementação de políticas de crédito formuladas a partir do Estado, o qual não é pouco. Mas não é suficiente se consideramos que a socialização requer da participação de acionistas sociais relevantes na gestão do banco. Aqui a gestão dos bancos pelos seus próprios trabalhadores não seria o mais apropriado. O pessoal atingido deve ser incorporado nas decisões sobre as suas próprias condições laborais, mas pouco mais, devido a que não lhe corresponde determinar as políticas de crédito que devem ser desenvolvidas.

Se os conselhos de administração devem lidar com o conflito de interesses entre os que prove empréstitos (os bancos) e aqueles que os recebem (as “empresas”), a fórmula para a composição dos conselhos de administração deve ser desenhada tomando em conta quais são estas empresas e que é o que necessitam. Necessitamos uma restruturação do sistema bancário, sistema que se converteu em algo excessivamente centralizado desde que os quadros regulatorios dos últimos dois séculos foram abandonados nas últimas quatro décadas. Este é um argumento forte que justifica a reconstrução da especialização bancária em função dos requirimentos dos beneficiários dos créditos, assim como da sua própria função económica (provisão de liquidez no curto prazo, contribuir para o financiamento de investimentos no meio e longo prazo). Deveríamos então, por exemplo, criar um “banco agrícola” (ou um conjunto coordenado de bancos agrícolas) que incluiria entre os seus clientes não só pequenos proprietários de terra e camponeses, mas também todos os envolvidos nas diferentes entidades da agricultura descritas acima. O conselho de administração do banco poderia incorporar por uma parte os “bancários” (pessoal do banco, os que foram recrutados pelo conselho de administração) e outros clientes (pequenos proprietários de terra ou camponeses, e outras entidades).

Podemos imaginar também outros tipos de sistemas articulados de bancos, adequados para diferentes sectores industriais, onde os conselhos de administração poderiam incluir clientes industriais, assim como centros de investigação, tecnologia e serviços, para assegurar o controlo do impacto ecológico da indústria, e deste modo garantir o mínimo risco (reconhecendo está claro que nenhuma acção humana está completamente livre de riscos), e vinculá-lo a um debate transparente e democrático.

A des-financeirização da gestão económica requer assim mesmo de dois tipos de legislação. A primeira referente à autoridade de um Estado soberano para proibir que fundos especulativos (fundos de cobertura) operem no seu próprio território. A segunda é a referida aos fundos de pensões, os quais se converteram atualmente nos maiores operadores na financeirização do sistema económico. Estes fundos foram designados, nos Estados Unidos em primeiro lugar, com certeza, para transferir aos trabalhadores os riscos normalmente assumidos pelo capital, e que constituem as razões às quais se costuma apelar para justificar a remuneração do capital. Isto constitui uma vigarice escandalosa, em clara contradição mesmo com a defesa ideológica do capitalismo! Mas esta “invenção” é um instrumento ideal para as estratégias de acumulação dominadas pelos monopólios.

A abolição dos fundos de pensões é necessária para beneficio de sistemas redistributivos de pensões, os quais, pela sua própria natureza, requerem de um debate democrático para determinar as quantidades e períodos de contributo assim como a relação entre as quantidades das pensões e os pagamentos. Numa democracia que respeita direitos sociais, os sistemas de pensões são universalmente acessíveis para todos os trabalhadores.

Todas as medidas de des-financeirização sugeridas aqui levam-nos a uma conclusão óbvia: Um mundo sem Wall Street, pegando o título de um livro de François Morin, é possível e desejável.

Em um mundo sem Wall Street, a economia está ainda controlada pelo mercado. Mas, pela primeira vez, estes mercados são verdadeiramente transparentes, regulados por uma negociação democrática entre atores sociais genuínos (atores que pela primeira vez já não são adversários, como ocorre sob o capitalismo). É o “mercado” financeiro, opacado pela natureza e o caráter dos requirimentos da gestão para os lucros dos monopólios, que desaparece. Poderíamos mesmo explorar se é útil ou não terminar com o intercâmbio de ações, uma vez que o direito à propriedade (tanto na sua forma privada como social) seria gerido doutro modo. O simbolismo em qualquer caso -um mundo sem Wall Street- conserva todo o seu poder.

Des-financeirização não significa em qualquer caso a abolição da política macroeconómica e em particular a gestão macro do crédito. Ao invés, restaura a sua eficiência ao libertando-a da subjugação a estratégias que buscam a maximização das rendas dos monopólios. A restauração dos poderes dos bancos centrais nacionais, já não mais “independentes”, mas dependentes tanto do Estado como dos mercados e regulados pela negociação democrática entre os acionistas sociais, atribuem-nos a formulação de uma política macro de crédito capaz de permitir uma gestão social da economia.

No nível internacional: desconexão

Neste ponto vou utilizar o termo “desconexão” que propus faz meio século, um conceito que o discurso contemporâneo aparentemente substituiu pelo sinónimo “des-globalização”. Nunca conceitualizei desconexão como uma forma autárquica de refúgio, mas como uma mudança estratégica relativmente tanto às forças internas como externas em resposta aos requirimentos inevitáveis do desenvolvimento autodeterminado. A desconexão promove a reconstrução de uma globalização baseada na negociação, no quanto de uma subordinação aos interesses exclusivos dos monopólios imperialistas. A desconexão faz também possível a redução das desigualdades internacionais.

A desconexão é necessária porque, sem esta, as medidas definidas nas duas seções prévias deste artigo não poderão ser nunca implementadas em escala global, nem sequer no nível regional (por exemplo, na Europa). Estas medidas unicamente poderão começar a se realizar no contexto dos estados / nações a partir de lutas sociais e políticas, comprometidas com um processo de socialização da gestão da sua economia.

O imperialismo, sob a forma que adotou até justo depois da Segunda Guerra Mundial, gerou um forte contraste entre centros imperialistas industrializados e periferias dominadas, onde a indústria foi proibida. As vitórias dos movimentos de libertação nacional iniciaram o processo de industrialização das periferias, mediante o desenvolvimento de políticas de desconexão necessárias para alcançar o desenvolvimento endógeno. Associadas com reformas sociais, que para aqueles tempos eram reformas radicais, estas desconexões criaram as condições para um eventual “surgimento” dos países que mais longe chegaram nessa direcção, obviamente com China à frente deste bloco de países.

Mas o imperialismo do actual momento histórico, o imperialismo da Tríade, está forçado a renegociar e “ajustar-se” às condições deste novo momento, e portanto a reconstruir-se sobre novas bases, baseadas em vantagens” mediante as quais busca se manter o privilégio da exclusividade que classifiquei em cinco categorias. Estas referem ao controle de:

· tecnologia

· acesso a recursos naturais do planeta

· integração global dos sistemas monetários e financeiros

· sistemas de comunicação e informação

· armas de destruição maciça.

Atualmente, a principal forma de desconexão é aquela definida precisamente por estes cinco privilégios do imperialismo contemporâneo. Os países emergentes estão destinados à desconexão destes cinco privilégios, com diferentes graus de controle e autodeterminação. Enquanto o sucesso rápido nas passadas duas décadas de desconexão permitiu a aceleração do seu desenvolvimento, em particular através do desenvolvimento industrial dentro do sistema “liberal” globalizado, quer dizer, “capitalista”, este sucesso alimentou a desilusão sobre a possibilidade de continuar por este caminho, quer dizer, emergindo como os novos “sócios capitalistas de igual nível”. O intuito de “cooptar” os mais prestigiosos destes países mediante a criação do G20 fomentou estas ilusões.

Mas com a atual implosão do sistema imperialista (chamado globalização”), estas ilusões devem esvair-se. O conflito entre os poderes imperialistas da Tríade e os países emergentes já é visível, e espera-se que piore. Se quiserem avançar, as sociedades dos países emergentes ver-se-ão forçadas a avançar para modelos de desenvolvimento autossuficientes, mediante planos nacionais e através do fortalecemento da cooperação Sul-Sul.

A audácia, nestas circunstâncias, inclui um compromisso fundo e coerente até o fim, que vincule as medidas requeridas de desconexão com os avanços desejados no progresso social.

O objetivo desta radicalização implica: a democratização da sociedade; o consequente progresso social associado; e a tomada de posições anti-imperialistas. Um compromisso nesta direção é possível, não só para as sociedades dos países emergentes, como também para os “abandonados” ou os “invisibilizados” do Sul global. Estes países foram recolonizados através dos programas de ajuste estrutural dos anos 80. Os seus povos estão actualmente mobilizados, e ou bem alcançaram algumas vitórias (em América do Sul) ou não o alcançaram ainda (no mundo árabe).

Audácia significa que a esquerda radical destas sociedades deve ter a coragem necessária para medir os desafios que enfrenta e apoiar a seguir e radicalização das necessárias lutas atualmente em marcha.

A desconexão do Sul prepara o caminho para a deconstrução do próprio sistema imperialista. Isto é especificamente óbvio claro em áreas afetadas pela gestão do sistema monetário e financeiro global, resultado da hegemonia do dólar.

Mas atenção: é uma ilusão esperar que a este sistema o substitua “um outro mundo monetário e um outro sistema financeiro”, que seja mais equilibrado e favorável para o desenvolvimento das periferias. Como costuma acontecer, a procura de um “consenso” baseado na reconstrução internacional e produzido a partir de cima, é um simples desejo à espera de que ocorra um milagre. O que está na agenda agora é a deconstrução do sistema existente -a sua própria implosão- e a reconstrução de sistemas nacionais alternativos (para países, continentes ou regiões), algo que já começou a suceder na América do Sul. Audácia é ter a coragem de avançar com a maior determinação possível, sem se preocupar demasiado com como vá reagir o imperialismo.

A mesma questão da desconexão é igualmente importante para a Europa, que é uma espécie de subescenario de globalização dominado por monopólios. O projecto europeu foi desenhado desde fora e construído sistematicamente para despojar a gente da sua capacidade para exercer o seu poder democrático. A União Européia foi estabelecida como um protectorado dos monopólios. Com a implosión da zona euro, a subordinação ao ganho dos monopólios significou a abolição da democracia, que foi reduzida ao status de farsa e que adopta formas extremas, concentrando-se só na pergunta: como o “mercado” (ou seja os monopólios) e as “agências de qualificação de riscos” (quer dizer, de novo os monopólios) reagem. Actualmente esse é o único assunto formulado. Já não é um tema a ser considerado o como a gente reage.

Está claro que nem aqui nem ali existe uma alternativa à audácia: é necessário “desobedecer” as regras impostas pela “Constituição Européia” e o ficticio Banco Central Europeu. Por outras palavras, não existe outra alternativa que deconstruír as instituições europeias e a zona euro. Este é a pré-condição indeclinável para a eventual reconstrução de “uma outra Europa” de povos e nações.

Em conclusão: Audácia, mais audácia, sempre audácia.

Em definitivo isto é o que quero dizer com audácia:

(i) Para a esquerda radical das sociedades da Tríade imperialista, a necessidade de um compromisso para construir um bloco social anti monopólico.

(ii) Para a esquerda radical das sociedades da periferia, o compromisso de construir um bloco social alternativo anti-comprador.

Vai levar tempo avançar na construção destes blocos, mas poder-se-ia dar uma aceleração se a esquerda radical se mover com determinação e se comprometer em avançar pelo longo caminho para o socialismo. É contudo necessário propor estratégias não para “sair da crise do capitalismo” mas para “sair do capitalismo em crise”, como diz o título de um dos meus recentes trabalhos.

Estamos num período crucial da história. A única legitimidade do capitalismo é criar as condições para transitar para o socialismo, o qual deve ser entendido como uma fase mais avançada da civilização. O capitalismo é já um sistema obsoleto, a sua continuidade só pode levar-nos à barbarie. Não é possível outro capitalismo. A possibilidade de um choque de civilizações é, como sempre, incerto. Ou a esquerda radical triunfa mediante a audacia das suas próprias iniciativas para elaborar avanços revolucionários, ou a contrarrevolução ganhará.

Todas as estratégias da esquerda não radical não são de fato estratégias, mas tão só ajustes conjunturais aos altos e baixos de um sistema que está implodindo. E se o poder que se quer, como Il Gatopardo, é o de “mudar todo para que nada mude”, e se os candidatos da esquerda acham que é possível “mudar a vida sem tocar o poder dos monopólios”, a esquerda não radical não deterá a vitória da barbárie do capitalismo. Já perderam a batalha por não querer enfrentá-lo.

Audácia é o que faz falta para provocar o Outono do capitalismo, Outono que será anunciado pela implosão do próprio sistema e pelo nascimento de uma autêntica Primavera dos povos, uma Primavera possível.

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[1] Sobre os inputs: “Começa-se considerando, por razões de simplificação, que se produz um só bem (ou serviço) por uma empresa e que para produzi-lo é necessário uma série de elementos denominados fatores de produção (também podem ser denominados insumos ou inputs). O bem ou serviço produzido recebe o nome de output. A função que relacionaria as quantidades da quantidade de fatores produtivos utilizados com o output obtido recebe o nome de função de produção. Os inputs utilizados seriam as matérias primas, produtos intermédios (comprados a outra empresa ou obtidos noutro processo de produção da mesma empresa), o trabalho humano usado, os fornecimentos de energia, água e similares, o custo de repor o capital utilizado, maquinaria, ferramentas), já que sofre desgaste pelo uso no processo de fabrico. Uma simplificação frequente é reduzir a dois os factores: capital e trabalho. Trabalho representaria o trabalho humano, capital o resto”. in http://és.wikipedia.org/wiki/Microeconom%C3%ADa

Referências:

Samir Amin, Sortir de la crise du capitalisme ou sortir du capitalisme en crise ; Le temps des cerises, 2009.

Samir Amin, Ending the crisis of capitalism or ending capitalism. Pambazuka Press 2011

Samir Amin, Du capitalisme á la civilisation ; Syllepse, 2008.

Aurélien Bernier, Désobéissons á l’Union Européenne ; Les mille et une nuits, 2011.

Jacques Nikonoff, Sortir de l’euro ; Mes mille et une nuits, 2011.

François Morin, Un monde sans Wall Street ; Le seuil, 2011.

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