2012, reinício do mundo!

Leandro Uchoas [Página 50]

Algum engraçadinho inventou que os Maias anunciaram, para 2012, o fim do mundo. Embora todos os especialistas em cultura maia já tenham desmentido o boato, prevaleceu a versão do travesso, que deve estar se matando de rir dos efeitos de sua traquinagem. Não é de hoje que os fofoqueiros são capazes de fazer um estrago na opinião pública. Agora, um exército de preocupados anda com a pulga atrás da orelha. Ponto para a mídia de mercado, que ganhou um motivo a mais para reciclar suas reportagens catastrofistas, sempre muito rentosas.

Por que, no entanto, ao invés de negar o boato, não nos aproveitamos dele? Por que não imaginar que, de fato, esse mundo velho, onde tudo está torto, chegou ao fim, para dar vez a um mundo novo, solidário, justo e efetivamente democrático? Por que não imaginar 2012 como um ano de reinício, oportunidade única para se refazer esse modelo injusto de sociedade? Por que não damos, nós mesmos, fim a esse planeta, para criar um outro, efetivamente de todos?

Os que têm pressa de viver, e sonhos para além da conta, acompanhem-me nessa brincadeira. E imaginemos como será o mundo depois do fim:

– as guerras serão feitas de música, as espadas serão feitas de flores, e os fuzis serão feitos de flautas.

– os tiranos que dominam povos inteiros perceberão o quanto é efêmero e imaginário seu poder, e o quanto eles não valem um grão de areia a mais do que o menino sujo e faminto a pedir moedinhas no sinal.

– as pessoas perceberão que, quando falamos de tiranos que dominam povos, não nos referimos apenas aos ditadores de países de nome complicado, mas também do que se convencionou chamar de “investidores” e “megaempreendedores”.

– aqueles mocinhos de barba bem cortada, gravata no pescoço e sapato bem engraxado, vão de repente parar de correr de um lado para o outro. Vão colocar uma bermuda velha, e olhar para o céu. Ou que seja para uma montanha, ou para uma multidão. E, ao perceber o quanto é imenso o mundo, e o quanto são transitórias e desimportantes suas preocupações, abandonarão a mentira que chamam de vida.

– os jovens, de tão sã e potente rebeldia, perceberão e respeitarão o valor imenso da sabedoria dos mais velhos, especialmente desses anjos de luz a que chamamos de mãe e pai. E os idosos perceberão e respeitarão o poder de transformação da rebeldia dos jovens, e o papel que ela cumpre na reciclagem do mundo.

– as crianças serão efetivamente crianças, o máximo que lhes for possível. Seu jeito doce de ser, e o som suave de seu riso, vão enfim tomar o mundo. E permanecerão crianças até mesmo quando tiverem que trabalhar, ter filhos e contas a pagar.

– as contas a pagar, os sobrenomes e os cargos não se tornarão mais importantes do que a amizade, a partilha, a arte, o vento, o sol e a lua. Nunca mais.

– a vida terá mais de feminino, mais de boemia, mais de poesia, mais de loucura, mais de sensibilidade. E se decretará, em lei, que todo encontro ou reencontro, mas todo mesmo, deve ser como um abraço.

– e também se decretará, em lei, que algumas leis são uma grande encrenca.

– não haverá mais esses depósitos de pobres errantes chamados prisões. E os ladrões mais abomináveis, os banqueiros, vão ficar com uma baita preguiça de roubar tanto.

– aqueles que tanto desejam ser ricos e famosos vão olhar, ao menos uma vez, por cinco ou seis minutos que seja, pela janela de suas casas. Ao ver miséria humana, se ainda houver, hão de rever suas metas. Fazendo-o, tornar-se-ão, enfim, ricos de fato.

– a mentira não será mais o maior dos vícios humanos, nas ruas, nas casas e nos jornais.

– os homens da Política não mais almejarão a fortuna, enganosa, ou o poder, passageiro. E os cidadãos comuns entenderão que de seu voto depende a sanidade da Política. Afinal, virar as costas para o problema é ser conivente com ele.

– a crise ambiental será resolvida com a única solução possível, a mudança radical do modo de se organizar a vida no planeta.

– serão abolidas, com um decreto de lei, todas as fronteiras do mundo, de países, de classes, de religiões, de idades, de culturas, de afetos.

– ninguém mais se importará sobre como as pessoas fazem amor, mas apenas se elas amam. Nada mais.

– todo recurso será mobilizado para educar crianças, porque a tarefa mais óbvia não pode viver de migalhas.

– os maiores vícios químicos serão não a pedra, mas o sorriso, não o pó, mas o abraço. E legiões de jovens serão abandonados na afetolândia.

Entretanto, caso o inesperado aconteça e essas previsões ainda não se confirmem, não há porque se desanimar. Permaneceremos na luta, incansáveis, construindo devagarzinho o cenário para que essa nova Terra surja, incomparável e bela, e para que dentro dela nasça algo que possa, de fato, e com justiça, ser chamado de Humanidade. Assim, quando ela vier, em um ano, um século ou um milênio, certamente terá um pouquinho de nós.

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