”O movimento mundial dos indignados da Terra começou com os zapatistas”

Alejandro González Ledesma e Marcela Salas Cassani [Desinformemonos.org]

Dois dos intelectuais mais renomados do México, Luis Villoro e Pablo González Casanova, fiéis à sua convicção zapatista, saudaram a luta do EZLN [Exército Zapatista de Libertação Nacional] em seu 18º aniversário e, embora ambos não pudessem estar fisicamente por motivos de saúde, enviaram sua participação ao II Seminário Internacional de Reflexão e Análise: “Planeta Terra: Movimentos Antissistêmicos”.

A reportagem é de Alejandro González Ledesma e Marcela Salas Cassani, publicada no sítio Desinformemonos.org. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O filósofo Luis Villoro, com quem o subcomandante Marcos recentemente manteve um intercâmbio de cartas sobre Ética e Política, felicitou “os companheiros zapatistas” pelo aniversário de sua insurreição, “esperando que as profecias maias nos surpreendam de forma positiva”.

Por sua parte, Pablo González, sociólogo e ex-reitor da UNAM, assinalou em uma conferência enviada especialmente para o encontro: “Pensemos na imensa mobilização dos indignados e dos ‘ocupas’ que lutam por outro mundo possível. Hoje – escrevem admirados dois professores ingleses –, a mobilização é gigantesca. Nunca se haviam dado conta dessa magnitude, e toda a mobilização começou (acrescentam) nas selvas de Chiapas com princípios de inclusão e de diálogo”.

González Casanova acrescentou que “serão cada vez mais aqueles que, no mundo inteiro, lutam pelo que, em 1994, parecia ser apenas uma ‘rebelião indígena pós-moderna'”.

“Depois de 18 anos, o EZLN continua sendo o movimento mais inspirador”

“A influência zapatista se estende cada vez entre nós, sobretudo no que se refere à necessidade de se organizar a partir de baixo com outros movimentos e à importância de impulsionar uma alternativa à agricultura industrial que ameaça o nosso planeta”, defendeu Carlos Marentes, da organização União de Trabalhadores Agrícolas Fronteiriços de El Paso, Texas, durante o quarto e último dia do Seminário Internacional de Reflexão e Análise.

Marentes destacou as condições em que se desenvolveu a luta dos Trabalhadores Agrícolas Fronteiriços – organização que se converteu em um espaço fundamental para a defesa dos cerca de 5 a 12 mil agricultores que, a cada ano, chegam ao sul dos Estados Unidos para semear as terras das grandes empresas agroalimentares – contra uma indústria que, apenas no Novo México, gera lucros de 600 milhões de dólares por ano.

“‘Outro mundo é possível’ não é apenas um lema”

Fernanda Navarro, doutora em filosofia e seguidora do zapatismo desde 1994, falou durante a sessão vespertina da última jornada do Seminário e, em entrevista ao Desinformémonos, considerou que os desafios dos zapatistas “são poder continuar construindo na autonomia, fortalecendo-se e provando que nem os maus governos nem a corrupção, nem toda essa violência vai ser capaz de esmagar as sementes já semeadas e o verde que impera nas montanhas de Chiapas”.

Os zapatistas, assinalou a pesquisadora, “deram um sopro de esperança e luz e, apesar de todas as dificuldades e agressões contra eles, demonstraram que outro mundo é possível, sim, e isso não é apenas um lema, porque nas comunidades zapatistas pode-se ver o diferente que é inter-relação humana entre companheiros e irmãos, algo que não tem nada a ver com a intenção de esmagar o outro”.

“É admirável que, durante 18 anos, os zapatistas resistiram às agressões diárias”

Uma das primeiras conferencistas da jornada, Sylvia Marcos, professora e pesquisadora de questões de gênero, disse ao Desinformémonos que, há 18 anos, o zapatismo “foi uma emergência política totalmente nova, que rompia todos os esquemas e, por isso, tornou-se referência de muitas lutas pela justiça social das mulheres, dos agricultores, dos operários, de pessoas que vivem às margens, por causa de seus modos inovadores de existir, que rompem com os esquemas do marxismo clássico”.

Marcos assinalou que, para os movimentos sociais do mundo inteiro, o zapatismo é um modelo a ser seguido e uma proposta acabada que está sendo vivida nos municípios autônomos e que demonstra que, sim, é possível, algo que aterrorizou o governo e que fez com que o território zapatista esteja totalmente militarizado e paramilitarizado. Por isso, “o mais admirável da luta zapatista é que ela continue construindo autonomia e resistindo, apesar das agressões que eles padecem diariamente”.

“No zapatismo, resta um polo de esperança política”

Outro dos conferencistas do último dia do encontro, Jean Robert, filósofo e arquiteto suíço nacionalizado mexicano, afirmou que o zapatismo demonstra há 18 anos que não são só uma luta armada, pois há em seu discurso e atividades cotidianas “uma reflexão que vai se aprofundando” e que, “embora seja difícil falar do efeito político dessa reflexão, certamente há influências dos zapatistas em Ostula, Cherán e nos policiais comunitários de Guerrero”.

No entanto, continuou Jean Robert, “há certas experiências, como a dos curdos, que foram influenciadas diretamente pelo zapatismo. Eu estive no Curdistão em um congresso cujo tema era ‘Outro mundo é possível’ enunciado em turco e em curdo, e sei que alguns curdos estudaram aqui no CIDESI”.

A mulheres e o feminismo comunitário

Julieta Paredes, da organização boliviana Mujeres Creando Comunidad, condenou a forma pela qual os movimentos sociais costumam situar as mulheres “como um setor a mais” e que os temas tratados pelas mulheres “são considerados como outros que se encontram entre os muitos temas que são tratados pela esquerda”.

“Mas a mulher”, afirmou Julieta, “é a metade dos setores e é a metade dos temas, e o feminismo-comunitário – categoria de análise hasteada pelo movimento do qual ela faz parte – localiza o patriarcado como o sistema que articula todas as opressões que o ser humano padece, construído historicamente sobre a opressão das mulheres”. Nesse sentido, através da derrota do patriarcado, “a comunidade poderá se servir de todo o corpo social para poder construir suas relações em liberdade”.

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