Vaticano veta livro sobre famílias diferentes

A. Rebossio [jornal El País]

O antigo Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, mandou silenciar uma obra sobre sexualidade e sobre a diversidade das famílias escrita por um pastor evangélico argentino e publicado por uma editora católica do país sul-americano.

A reportagem é de A. Rebossio, publicada no jornal El País, 11-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O prefeito da atual Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal norte-americano William Levada, enviou no último dia 5 de novembro uma carta à editora San Pablo, na qual advertia que esse livro continha “opiniões contrárias à doutrina da Igreja acerca da sexualidade” e pedia para “corrigir o quanto antes essa situação, que é causa de confusão entre os fiéis”.

A editora retirou, no fim de novembro, todos os exemplares das lojas, retirou o livro de seus catálogos e proibiu sua promoção em suas publicações.

O livro se chama Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto [Casais e a sexualidade na comunidade de Corinto], do pastor evangélico argentino Pablo Manuel Ferrer (foto). Ele havia sido publicado pela editora San Pablo em 2010 para iniciar uma coleção ecumênica sobre temas bíblicos. Por isso, convidou-se teólogos de outras Igrejas para participar.

“Quando me convocaram para publicar um livro, estranhei, mas me pareceu muito interessante a proposta ecumênica”, relata Ferrer (foto). O pastor tinha em mente escrever um livro sobre casais e sexualidade “porque Jesus abriu novas possibilidades”. Ele tinha receios de que a editora mudaria alguns conteúdos: “Eu pensava que se me tirassem uma vírgula eu não o publicaria, mas publicaram tudo tal qual… Me pareceu interessante que um espaço católico abrisse o jogo A leitura bíblica tem uma diversidade de interpretações. Ela teve no momento de ser escrita. A Bíblia não é homogênea”, diz.

O livro foi publicado em uma folha que é distribuída todos os domingos em todas as igrejas católicas da Argentina e, a partir daí, alguém levantou a denúncia ao Vaticano. Ferrer não sabe qual conteúdo do seu livro desagradou o cardeal Levada, mas imagina. A obra não se refere à homossexualidade, ao aborto ou aos anticoncepcionais, mas sim à diversidade nas famílias e à aceitação do desejo sexual. “Meu livro fala da sexualidade como um desejo válido”, explica o pastor, que se refere à carta de São Paulo aos Coríntios, em que se admite a diversidade de famílias.

“Meu livro pode ter provocado barulho porque eu digo que a família composta por papai, mamãe e filho é uma das estruturas familiares possíveis”, explica Ferrer. Quando seu livro foi retirado das livrarias, o pastor ficou surpreso: “A mim, o cardeal não pode fazer nada, mas se eu fosse sacerdote deveria dar explicações”.

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