Dia Internacional da Mulher | No horizonte, uma revolução do afeto

Ghyslaine Cunha [Amores Meus, Vida Minha]

“Não se nasce mulher, torna-se.” Com essa frase, a filósofa, escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir selou o conceito de consciência de gênero: para ser mulher, não basta possuir os aspectos biológicos femininos, mas ir além, desafiar um mundo patriarcal, onde nos são negadas igualdade de direitos, independência e autonomia; construir e alimentar a consciência de ser mulher inserida nas lutas e conquistas para além do próprio tempo, abrindo espaços políticos, sociais, econômicos e culturais, por igualdade de direitos, acessos e oportunidades que considerem e respeitem as diferenças em suas especificidades.

Considerando essas diferenças, homens e mulheres são capazes de fazer tudo igualmente, desde que educados e treinados para isso. Aí, na educação e no treino, é que se instala a relação social de poder que determina, hoje bem menos do que há vinte anos, a submissão da mulher. Os homens, educados e treinados para viver o espaço público e as decisões políticas; as mulheres, educadas e treinadas para viver o espaço privado, doméstico, a casa. Isso tem mudado muito, felizmente.

Os mais jovens, que residem nas médias e grandes cidades brasileiras custam a crer que um dia foi assim: os únicos destinos considerados nobres a uma mulher eram o casamento ou o convento; mulheres passavam do domínio do pai ao jugo do marido; eram obrigadas a casar com quem os pais escolhiam; de um modo geral não estudavam, e quando estudavam, freqüentavam as chamadas escolas femininas com conteúdos pedagógicos que as mantinham submissas e não as preparavam para serem cidadãs, mas apenas donas de casa; aliás, mulheres não eram cidadãs, não votavam e não podiam ser votadas; mulheres obedeciam e apanhavam caladas de seus maridos; seus corpos serviam apenas aos desejos masculinos, jamais a seus próprios desejos; mulheres nem podiam ter desejos, a não ser os de agradar aos homens. Mulheres eram ‘de Atenas’, como cantou Chico Buarque:

“Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade;
Têm medo apenas.
Não tem sonhos, só tem presságios.
O seu homem, mares, naufrágios…
Lindas sirenas, morenas.”

Há apenas 80 anos atrás foi consagrado o direito do voto feminino no Brasil através do Decreto 21.076 de 24 de fevereiro de 1932, quando foi instituído o Código Eleitoral Brasileiro pelo então presidente Getúlio Vargas. Na luta pelo sufrágio feminino, a moderada Bertha Lutz foi a principal líder feminista até a década de 30, à frente da “Federação Brasileira para o Progresso Feminino”. “Mas a luta no início do século XX não se reduziu ao sufrágio e a Bertha Lutz. Há também a atuação das feministas no meio do movimento anarquista e operário e nas diversas publicações do fim do século XIX e início do século XX. Estas já lidavam com o dilema sobre a relevância da questão feminista frente às lutas de classe (…) já vêem a exploração da mulher como derivada da posição dominante do homem, que se interessaria em deixá-las à margem do espaço público.” Ressalta Céli Regina Jardim Pinto, em seu livro “Uma História do Feminismo no Brasil” (Ed. Fundação Perseu Abramo, 2003).

Em nosso Estado também há registros importantes da atuação de mulheres feministas ao início do século XX. “…pode-se afirmar que no Pará são percebidos traços significativos das duas tendências mais influentes do feminismo – a liberal burguesa e a socialista -, na produção literária e jornalística e na ação prática de duas intelectuais das décadas de 1920: Orminda Ribeiro Bastos e Eneida de Morais. (…) A condição das mulheres e os prováveis equívocos do pleito referente à emancipação feminina,através da conexão com o direito de voto, são os pontos mais discutidos.” nos afirma a cientista política e crítica de cinema, professora Luzia Miranda Álvares.

Como as leis só avançam com as lutas, foram necessárias muitas e incansáveis lutas de mulheres corajosas, ousadas e lúcidas, que em seu tempo foram consideradas loucas, desguiadas, marginais, e sofreram em seus corpos, e pagaram com suas próprias vidas por levantarem bandeiras subversivas da ordem social, que privava as mulheres de direitos, liberdade e dignidade.

As primeiras mulheres a conquistarem o direito de voto no Brasil foram Celina Guimarães Viana em Mossoró, em 1928, no Rio Grande do Norte, e Maria Ernestina Carneiro Santiago Manso Pereira, a Mietta, poetisa, intelectual e primeira mulher eleitora em Minas Gerais, que foi homenageada por Carlos Drummond de Andrade neste visionário poema:

“Mietta Santiago
loura poeta bacharel
Conquista, por sentença de Juiz,
direito de votar e ser votada
para vereador, deputado, senador,
e até Presidente da República,
Mulher votando?
Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?
O escândalo abafa a Mantiqueira,
faz tremerem os trilhos da Central
e acende no Bairro dos Funcionários,
melhor: na cidade inteira funcionária,
a suspeita de que Minas endoidece,
já endoideceu: o mundo acaba”.

Desde a virada do século XX até hoje muitos avanços são contabilizados. As pautas das lutas de gênero foram ampliadas no âmbito da saúde; da conquista de direitos políticos, inclusive o direito ao próprio corpo; da representação eleitoral; das denúncias de abusos sexuais; das lutas relativas ao mundo do trabalho, e são atualizadas na medida em que novas conquistas são garantidas. Há um lindo, árduo e longo caminho entre a conquista do direito do voto feminino na década de 1930 e a recente e avançadíssima decisão do STF que determinou a validade da Lei Maria da Penha, mesmo sem a denúncia da vítima. Agora, em briga de marido e mulher, todo mundo pode e deve meter a colher. E isso representa uma enorme revolução cultural, se pensarmos no quanto irá alterar valores em uma sociedade ainda patriarcal e machista, onde em centenas de pequenas cidades interioranas e mesmo nas periferias dos grandes centros urbanos, meninas ainda são vendidas no mercado do tráfico de pessoas para a prostituição infantil.

Podemos afirmar que há muitos e maravilhosos avanços, assim como é necessário ressaltar que muito há a avançar, especialmente quanto a tornar as leis realidade, e no aspecto do reconhecimento e da afirmação das especificidades do universo feminino. Durante alguns anos queimamos sutiãs em praças públicas para lutar por igualdade de direitos, hoje, queremos destacar a beleza da diferença, por que não precisamos ser iguais na essência e na forma para termos direitos plenos. E é interessante perceber, inclusive no vestuário e nos costumes, como isso se manifestou na década de 1980, quando o senso comum começava a assimilar essa revolução social de gênero e surgiu a moda do terno e gravata para as mulheres, aproximando-nos do mundo masculino. Hoje já demos essa virada. Queremos mostrar a nossa cara, o nosso corpo, as nossas emoções, queremos aproximar os homens do mundo feminino.

Nesse sentido, há questões ainda a serem desveladas ou reforçadas pela luta de gênero, relativas ao mundo dos sentimentos, dos afetos e suas significações mais profundas no imaginário feminino. Sim, porque é inegável que a mulher se move intensamente pelo sentimento. O universo feminino é o lugar da sensibilidade, da emoção e isso não nos faz menores ou menos poderosas. Por isso os poetas e cantores que souberam traduzir o feminino em suas obras, são tão adorados pelas mulheres. Revelam muito da identidade feminina profundamente marcada por um sentir intenso, profundo, próprio e único, e que nas lutas de gênero acabou por ser, de certa forma, recolhido, talvez pela necessidade de maior exposição das mulheres no espaço do público, muito masculinizado. Redescobrir o que há de mais singular e delicado no ser mulher, a partir das mulheres que nos tornamos hoje, com as conquistas que garantimos em décadas e décadas de lutas, talvez esse seja um resgate importante e necessário para voltarmos os olhos e os corações para o feminino que somos em essência e colocarmos esse sentir no lugar em que precisa ser colocado para toda a sociedade, mas principalmente para nós mesmas. Aí teremos uma revolução do afeto, liderada pelas mulheres, mas acolhida por todos, como na bela canção ‘Mundo de Paz’, na voz de Elis Regina:

“É como a roda da história
Que nunca foi de parar
Há um turbilhão
De anseios despertando
Nossa voz esperando”

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Uma resposta para “Dia Internacional da Mulher | No horizonte, uma revolução do afeto

  1. Duas potentíssimas forças: amor e ódio (que correspondem ao bem e ao mal) representadas pela figura masculina de deus e o diabo. Eis o elemento catalizador da opressão que vitima a mulher. Enquanto persistir a ideologia machista de que um macho pariu o mundo, tudo não passa de dissimulação. A mulher é a geradora de vida, logo, é o poder – coisa que os machos há muito perceberam e tentam de toda maneira evitar essa verdade. Mas o pior é a mulher crer em deus e no diabo muito mais que o homem…

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