Passo para a liberdade

[Luiz Mário de Melo e Silva]

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) favorável ao aborto de fetos anencéfalos é um importantíssimo passo para a liberdade da mulher. E, por conseguinte, da sociedade que, em um mundo em permanente transformação, não pode ficar a mercê da mentalidade monolítica de um centro dominador que emana da idéia de um deus criador da vida, uma inconcebível concepção machista, diga-se.

Tão importante deliberação possibilita a mulher optar, como deve ser, sobretudo numa sociedade democrática, e, justo por isso, fazer a escolha sobre o que mais lhe compete: decidir sobre o que deve nascer ou perecer a partir de si.

Ora, toda a história da mulher é a história de submissão ao homem, da negação daquilo em que ela é a única capaz, não encontrando rival na condição de parideira da vida – coisa solenemente escamoteada pela idéia de que a vida foi gerada pelo homem na figura suprema de deus.

Por essa condição, a mulher encontra-se duplamente prisioneira haja vista que as regras sociais também foram estabelecidas pelos homens, ainda que elas pareçam flexíveis, diferentemente das leis (dogmas) religiosas, onde não há espaço para questionamentos e de onde recebem as mais duras críticas (o que, aliás, não poderia ser diferente, já que são os homens os fundadores das religiões).

Mas é justamente por possuir essa qualidade que a mulher é uma ameaça para o homem, pois se toda a história é sobre a luta de conquista do poder para o domínio do mundo, é imperioso lembrar que o mundo até pode existir sem a vida, embora desprovido de valor, já que isso é algo concebido pelo ser humano, enquanto que ela (a vida), é o centro de tudo e existirá sempre a partir da mulher, advindo daí o real poder em oposição ao artificial poder masculino.

Isso torna-se mais que evidente se aceita a proposição que o ser humano se define pela condição de ser a natureza condensada, ou ela se encontrar objetivada nele (ou seja, constituindo-se na complexidade de elementos orgânico e inorgânico em suas infindáveis relações de ação e reação, gerando sempre o novo, a natureza não deve assim ser considerada se houver a ausência do mais simples elemento, condição que deve ser também observado no ser humano, sobretudo, quanto à ausência do cérebro), sendo a mulher, portanto, pela condição de parir, sua exposição exata e prática – o que lhe confere a referência para a natureza social.

É claro que isto provoca uma profunda discussão sexista, onde será abordada a questão da força física, talvez mais atuante no homem, como meio para justificar a dominação, afinal, aquilo que mantém o status quo, ainda que alienante, até então não aceitará sua superação. Superação que seria facilmente aceita se usado como parâmetro avaliativo algo inerente a todo ser humano, como a dor, por exemplo, onde, a partir da interpretação de seu significado, ela venha a ser o critério adotado para a criação do “mundo como vontade e representação”, segundo Schopenhauer, quando da comparação da dor sentida pela mulher por ocasião do parto e pelo homem quando do machucado no testículo.

Por que tal critério! Porque carrega incomensurável potencial de impulsão pelo simbolismo que essas áreas representam.

Embora a dor seja inerente a ambos seus desdobramentos, como variação e intensidade, escapam ao outro, sendo, portanto, apenas conjectura a opinião sobre a essência do sexo oposto.

Com isso a mulher nada pode opinar de exato sobre deus (e o diabo, por que, não?), sendo este criação masculina, onde sua figura é inconfundível, bem como o homem jamais poderá fazer o mesmo quanto à geração da vida orgânica na mulher, cabendo só a ela, portanto, a decisão de continuar ou cessar a gestação de anencéfalo.

Ocorre, todavia, que a natureza definiu muito bem os gêneros (como também os dotou de inteligência, seu sublime e mais refinado subproduto), e a partir de experiências particulares como as supracitadas, a inteligência, funcionando como uma espécie de juiz (a), poderia afirmar quem mais apto estaria para se colocar como referência para o mundo. Com isso o recurso a força cessaria e prevaleceria a experiência concreta da gestação orgânica em oposição a gestação onírica (masculino).

E assim, nosso país, talvez liberto da anacrônica mentalidade colonialista/cultural/religiosa, que oprime não somente a mulher, mas sobretudo ela, como também o povo, mantendo-o cativo, no passo dado pelo STF, possa usufruir realmente da abundante riqueza de sua biodiversidade, representada também por homens e mulheres – em última instância, o povo – que, atuando com inteligência o colocaria num elevado patamar de qualidade de vida.

Que a sociedade brasileira possa, então, sempre se esmerar na ampla votação do STF pela liberdade de escolha da mulher, se realmente pretende ser um grande país. Pois do contrário todo elogio à mulher não passaria de dissimulação e seria como a liberdade de trem, em que uma possante e rígida locomotiva limitada pelos trilhos, teria seu destino definido por seu construtor.

Luiz Mário de Melo e Silva
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI).
E-mail: luizmario_silva@yahoo.com.br
Icoaraci – Belém – Pará.

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