As cotas e nosso racismo colorido

Sérgio Domingues [Pílulas diárias]

O sociólogo Alberto Carlos Almeida é autor de um livro mais que polêmico. Publicado em 2007, “A Cabeça do Brasileiro” defende teses que podem levar à perigosa conclusão de que muitos dos problemas brasileiros são culpa de seu próprio povo.

Mas em recente artigo, ele apresenta dados interessantes sobre o racismo brasileiro. Em “A decisão do STF e a realidade brasileira”, publicado no Valor em 04/05, Almeida defende a adoção das cotas raciais em universidades. Citando pesquisa que faz parte de seu livro, ele afirma:
O preconceito de cor no Brasil é forte e bem arraigado. Além disso, é variado, atingindo de maneira diferente pardos, pretos e brancos. Avaliamos também, por meio de um experimento em que a cor não variava, mas variava a classe social, se o preconceito é de cor ou de classe. Isolados os efeitos estatísticos da cor e da classe social, provamos, como sempre, o óbvio: o preconceito é de cor, não é de classe.
O experimento a que ele se refere envolveu oito fotos. Eram retratos de homens com tons de pele variando do mais claro ao mais escuro. A escolha desse método deve-se ao fato de que o “brasileiro não diferencia as pessoas pela raça, mas pela cor”. Segundo o sociólogo, diferente do que acontece nos Estados Unidos, “os brasileiros não consideram importante a descendência, mas a cor da pele”.
O estudo traz resultados óbvios: “quando se analisa a cor das pessoas, nada é melhor no Brasil do que ser branco”, diz Almeida. E nem tão óbvios:
Em primeiro lugar, o preconceito é maior contra os pardos do que contra os pretos. Uma política de cotas que venha a favorecer mais as pessoas mais pretas, e um pouco menos as pessoas mais pardas, estará favorecendo aqueles que são menos prejudicados pelo preconceito. Em segundo lugar, apesar de o preconceito ser maior contra os pardos, a população afirma que os mais pobres e os que têm menos chances e oportunidades na vida são os pretos.
Outro dado importante é o preconceito contra nordestinos. Segundo Almeida:
… detectamos que ser nordestino (ainda que branco) pode ser uma barreira importante para a melhoria de vida. Se compararmos a avaliação que a população faz dos brancos não nordestinos (…) com o branco nordestino (…), será notado que o branco nordestino é vítima de preconceito.
Resumindo, o artigo defende que “políticas de cotas funcionariam melhor com adaptações para as condições brasileiras, e não simplesmente copiando-se a divisão americana entre somente duas cores”. Faz sentido.
Faz ainda mais sentido entender que as cotas são muito importantes, mas muito limitadas para dar conta do racismo colorido que atormenta a sociedade brasileira.
Leia a íntegra do artigo, clicando aqui
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