As Vadias

[Luiz Mário de Melo e Silva]

No último mês de maio, as vadias sob o lema “Lugar de mulher é onde ela quiser” saíram às ruas para lutar contra a opressão histórica a que estão submetidas. Não há espaço mais simbólico para elas, onde expressam a síntese perfeita da liberdade.

Aliás, as vadias estão em qualquer lugar, pois ao tomá-las como referência para a liberdade não podemos deixar de perceber a simbiose entre a mulher e a natureza, porquanto geradoras da vida.

Vida é vadiagem, como sugere o parágrafo anterior? Não é só isso, porque é também solidão e ambas são filhas siamesas da liberdade.

E isso está impregnado no DNA psicológico de todo ser humano, pois durante algum tempo todos foram vadios e solitários quando desfrutam do paraíso no ventre materno. Obviamente que só a mulher pode, então, proporcionar uma vida livre – o que certamente é uma ameaça para aqueles, os salvadores de qualquer matiz, que se pretendem como os únicos capazes de garantir essa humana desejada condição, ensejando daí a raiz da opressão contra a mulher.

Ora, se o lugar dela é onde quiser, como diz o lema da marcha, há de se imaginar que podem estar em um puteiro, sendo – e porque não? – putas como bem é a vida, esta que em sua inexplicável condição não ilude quanto à oferta do prazer, do orgasmo, do intenso êxtase, como proporcionam as putas a quem as procura. Se enganados estão aqueles que se deleitam com elas (putas e vida), certamente devem procurar a culpa em outro lugar. Quem sabe se onde encontram-se os santos e os moralistas? Portanto, a puta tende a ser a mais honesta das mulheres que não finge virgindade, logo, não há engano – algo insuportável a qualquer um.

Do mesmo modo é a natureza que não se oferece, mas está a disposição de todos. É perfeita, porque, de todos e de ninguém, leva a humanidade sempre para o adiante, para a transformação permanente com sua dinâmica que não se submete a centro algum dominador.

Assim as vadias, no mais concreto sentido de vida, então, encarnam o que de mais prazeroso se impõe ao ser humano: a liberdade para ser e estar onde quiser. E, com isso, podem resgatar os machos da beira do abismo em que se encontram, pois enquanto construtores de mundos artificiais vivem sobre estes com pés de barro.

Luiz Mário de Melo e Silva
Coord.do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
E-mail: luizmario_silva@yahoo.com.br

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Uma resposta para “As Vadias

  1. É. Não é absurdo dizer que a mulher é onipresente e, também, onipotente como a Natureza, e para um macho admitir isso é muito difícil. O composto simbiótico foi muito bem observado pelo autor, pois a solidão, a vadiagem, palavras que tem sentido negativo pela ótica capitalista tem forte relação com a vida, assim como o ócio era rejeitado.

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