Dias Na Tunísia

[ Luiz Arnaldo Campos]

Com uma marcha de sete quilômetros, com dezenas de milhares de pessoas, pela larga Avenida Mohamed V, o Forum Social Mundial abriu sua nova edição, em Túnis, capital da Tunísia. A tarde clara, com um pouco de frio do início da primavera embalou uma bela caminhada dentro da melhor tradição do FSM. Havia de tudo mas a onipresença da bandeira palestina e as fortes delegações do Saara Ocidental e do Marrocos – convenientemente colocadas em pontos bem distantes da marcha- já foram um indicativo do prato forte dos futuros debates.

Como era de se esperar a maior parte dos delegados são da África, dos congoleses que marcharam entoando cantos tradicionais aos nigerianos bradando Allah Akbar! Dos tunisinos, os mais organizados foram os comunistas que desfilaram portando faixas com seus símbolos – a estrela vermelha e o punho fechado mais a efígie de Choukri Belaid , o líder da Frente Popular, recentemente assassinado. A segunda presença continental mais forte são dos europeus poucos latinoamericanos e asiáticos menos ainda. Por sermos conhecidos do FSM de Belém eu e Celia fomos convocados para o abre alas da Marcha, junto com representantes de outros continentes. Mais tarde chegou a Mercedes do MST de Marabá e depois encontramos a Nilma, do Cedenpa.

Até agora, somos os quatro amazônidas por aqui. Na frente da marcha muitos retratos com a imagem dos mártires da luta pela derrubada do ditador Ben Ali. As palavras de ordem, em árabe, taduzidas para o frances por um amigo, falam de Solidariedade, Soberania e sobretudo Dignidade, palavra símbolo da revolução tunisina cujo impacto continua presente nas ruas da capital tunisina.

Na Avenida Bourguiba

A praça 14 de Janeiro faz com a Avenida Habib Bourguiba o entroncamento pulsante de Túnis. Seus nomes dizem muito: a data é o marco da revolução – é assim que os tunisinos se referem ao recente movimento também conhecido como primavera árabe e o nome é o do prócer da independencia, que governou a Tunísia por trinta anos e é considerado o artífice do país. Chegamos cinco dias antes do início do FSM, mais exatamente no dia comemorativo da libertação da Tunísia do colonialismo francês é pudemos compartilhar sentimentos fortes. No passeio central da avenida deparamos com uma tenda onde reproduções de fotos antigas, rememoram o longo caminho da saga libertadora- manifestações, rostos de mártires, ações repressivas das forças colonialistas, instrumentos de morte (como a guilhotina) e tortura.

Nos alto-falantes ressoavam fortes canções patrióticas e as pessoas circulavam emocionadas. No teatro em frente, a peça em cartaz se chama Bourguiba, a Última Prisão, sobre o líder da independência que por tudo que ouvimos é bastante querido e considerado o responsável pelo estado laico com liberdades para as mulheres do qual todos se orgulham. Depois de Bourguiba veio Ben Ali que governou vinte e três anos e acabou deposto pelo povo agoniado com o desemprego, o crescimento da pobreza e a corrupção que continuam sendo os problemas mais citados. Os reflexos da Revolução Tunisina estão por todo lado: a banca de livros de um supermercado local apresenta uma boa quantidade de títulos sobre a história da Tunísia, experiências de prisão, o movimento operário tunisino, depoimentos de militantes feministas e revistas de análises políticas; nas lojas de CD e DVD, filmes sobre Nasser, nacionalização do Canal de Suez e sobre a morte de Kadhaffi; nas ruas topamos, em dias diferentes. com uma greve dos funcionários de um hotel e um grupo de mulheres protestando em frente ao Ministério das Mulheres e da Infância, tudo isto na trepidante Avenida Bourguiba, com seus cafés eternamente cheios, o ar tomado pela conversação sem cessar e as vistas tomadas pela passagem de mulheres vestidas à ocidental passeando com outras cobertas dos pés a cabeça.

O Mar Vermelho de Marsa

Nos primeiros dias nada nos emocionou tanto quanto uma visita à Marsa, pequena cidade balneário debruçada sobre o mar azul turquesa destas costas do Mediterraneo. Chegamos lá num trem lotado por gente que veio passar o fim de semana na beira mar e logo ao desembarcar somos surpreendidos por sua beleza serena. Caminhando pela orla, ornada por palmeiras, fomos atraídos por uma aglomeração no final da praia, onde em volta de um pequeno palco, mulheres puxavam palavras de ordem, preparando uma manifestação, cobrando das autoridades esclarecimento da morte de Choukri Belaid. Na abertura do ato, um conjunto musical entoa as primeiras notas de um hino que reconhecemos pelos primeiros acordes. É a Internacional que ouvimos cantada em árabe, pela primeira vez na vida. Na Tunísia os ares estão cheios dos sons da esperança.

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