Aproveitar o oxigênio novo que vem das ruas para se desburocratizar

[Luiz Araújo]

As manifestações atuais não estão ancoradas nas organizações populares ou estudantis existentes, muito menos nos partidos (conservadores ou progressistas). E isto faz uma enorme diferença.

As manifestações atuais não estão ancoradas nas organizações populares ou estudantis existentes, muito menos nos partidos (conservadores ou progressistas). E isto faz uma enorme diferença.

Oxigênio, urgente!

Uma das polêmicas travadas nas redes sociais era se estava correto se falar que o “gigante acordou”. Muitos ativistas do movimento social, que durante décadas vem batalhando contra os abusos do poder público reagiram e declararam que nunca o gigante esteve dormindo. E vi também que muitos indiretamente acusaram o movimento de ser apenas o despertar da classe média, pois a periferia nunca dormiu.

As coisas são um pouco mais complexas. É verdade que não começamos a lutar por direitos em nosso país na semana passada. Isso é óbvio inclusive para a juventude, quanto mais para os trabalhadores, índios, ambientalistas, professores e a lista poderia seguir por mais algumas minhas neste post.

Acontece que as mobilizações colocaram em cena novos atores sociais. A juventude pós-democracia saiu das redes sociais, do comodismo, da baixa participação e se radicalizou de forma muito acelerada.

Porém, ao contrário das mobilizações da década de 80 contra a ditadura ou as dos anos 90 que depuseram Collor de Melo, as manifestações atuais não estão ancoradas nas organizações populares ou estudantis existentes, muito menos nos partidos (conservadores ou progressistas). E isto faz uma enorme diferença.

Um exemplo disso é que críticas aos gastos e remanejamentos vinculados à Copa do Mundo faziam parte da mobilização de setores organizados, especialmente da Igreja Católica. Mas estes movimentos conseguiam atrair apenas a vanguarda do movimento social para suas atividades e, caso não houvesse um novo ator em cena, suas manifestações teriam ocupado uma nota de rodapé na imprensa nacional e a cobertura da Copa da Confederações teria conseguido transformar o país em uma enorme torcida pela seleção.

Outro exemplo é que a UNE realizou seu último Congresso dias antes da eclosão dos protestos e, apesar de enorme esforço de mobilização para eleição de delegados, a participação das entidades estudantis ainda é muito lateral nas manifestações (mesmo que não se possa dizer o mesmo da participação dos jovens universitários).

Eu acredito que será necessário aprender com os jovens. A forma de fazer política e de reivindicar os direitos vai precisar ser reinventada. As nossas entidades sindicais, populares e estudantis precisarão alterar a sua prática, aproveitar o oxigênio novo que vem das ruas para se desburocratizar, sair do comodismo das negociações de gabinete, caso contrário, perderão legitimidade aos olhos do povo que julgam representar. O desgaste não atinge somente os partidos tradicionais, atinge os partidos mais ideológicos e as entidades.

Luiz Araújo é professor, mestre em políticas públicas em educação pela UnB e doutorando na USP.

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