Com fome não se faz política. Se faz feijão

[Netto Dugon]

Netto Dugon, artista e cidadão.

Netto Dugon, artista e cidadão.

Desde a primeira ida às ruas de Belém, que eu não me posiciono. Ora por eu estar de fato sobrecarregado com toda essa revolução nas ruas, ora por ter que chegar em casa e fazer feijão. E confesso, fui ingênuo. Acreditei de imediato que havíamos amadurecido o bastante para sermos políticos contemporâneos. Eu sou. Quem mais é de fato? Não sei.

Fiquei confuso… Mas por contexto eu continuei: tenho que picar os temperos, e cortar os legumes.

Voltei do manifesto, quase sem me manifestar. Com as palavras assaltadas de mim. Minha expressão estava tacanha, entre curtidas e compartilhadas. Estava extasiado também, não há como negar. No dia seguinte ao primeiro grande manifesto, fui a Câmara Municipal de Belém, entendi que a continuidade lógica deste levante saído do facebook, era estar nas ruas e (pra mim, pelo menos) era também pra sair das ruas e ocupar os prédios públicos que bem enxertamos com o nosso desejo expresso de representâncias. Afinal até então, o sistema vigente é o estado democrático de direito, por tanto iríamos “aproveitar o ensejo” para nos apropriar dos dispositivos burocráticos regulatórios e fiscalizatórios: iríamos discutir o PPA! Hã, mas o que? (o que é PPA?)

Esse charque tá muito gordo. Sabe quando a carne não está muito bem maturada? Feiazinha?

De modo que mesmo solitariamente, vesti meu mais peremptório figurino – ainda deu tempo de aprender com um amigo o que é perempção -, com a máscara e a maquiagem mais condignas ao decoro. Não o da CMB, mas o meu decoro. Estive lá pelo meu palhaço, que ainda é uma pesquisa pouco madura. Mas, por seguro, que manifestante nenhum com o nariz de palhaço, nem de longe me representa e está a pelo menos umas quatros saídas aquém. Ao passo que o mais importante, é que depois de demarcar terreno político nas propostas de condução do governo municipal para o quadriênio subseqüente no relativo às políticas públicas de cultura, uma míngua de mais ou menos 20 munícipes além de mim estavam lá para debater as demais questões do maldito PPA, cada um em sua área de atuação e/ou por conhecimento de causa.

A pior parte de cozinhar um bom feijão é catar os bagos. Tem pedra, feijão quebrado e as vezes até uns pequenos insetos. Empurra pro lado. Lava o que catou. Pronto! E se for escolher muito um quilo dá mal meio.

No entremeio dessa famigerada reviravolta política nacional. Tivemos em particular, uma estremecida nas rotinas de trabalho do órgão estadual de cultura no qual sou Servidor. Lá, contudo, no Teatro Margarida Schivasappa, o que parecia ser apenas um carnegão de uma ferida mal curada, descobriu-se quase uma necrose de muitos tecidos e órgãos. Tal e qual a Santa Casa de Misericórdia? “Humf, a Santa Casa, tá é bem perto disso aqui…” sentença essa que eu compelia por coerência, até ouvir de outrem. Pela urgência do mal que alguns poucos causam, os préstimos de solução desse problema está a caminho.

Prefiro azeite, mas quando não tem vai no óleo mesmo. Aí frita o alho, cebola, pimentão. O charque é o primeiro que vai no fogo, depois mistura o feijão e no final de tudo os legumes. Daí é água e pressão.

De ontem pra hoje, eu nem dormi. Vim assustado das ruas. Acho que voltei para o facebook. Mas não por causa dos baderneiros, dos vândalos, da minoria violenta. Voltei e assustado, porque me vi arisco. Porque andam falando por aí que tem um tal gigante que acordou. E eu que nem dormi, e ainda quase atrapalho o embarque de uma amigo que igualmente a mim: tem partido, é o PSOL, está lutando a mais tempo que eu (e dignamente), e por isso o respeito, sem que ele precise me indicar que eu estou ultrapassando qualquer limiar de violência ou de oportunismo. E por falar nisso: violência é nem todo brasileiro ter o feijão que vou comer, e oportunismo é o que as bandeiras que (respeitando o apartidarismo da causa? será?) ainda não se revelaram nessas manifestações fazem diuturnamente com os brasileiros sem feijão.

Netto Dugon é Artista & Cidadão
Brasileiro da Amazônia Paraense
Servidor Público Estadual

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