O troco de Marcelo Freixo nas Organizações Globo

Por Fábio Nassif, em Carta Maior

Image“Os cães ladram, Sancho. É sinal de que estamos avançando”. Estas foram as palavras do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) – citando a famosa obra de Miguel de Cervantes – para atenuar a semana de insônia vivida pelo seu colega de partido, o deputado estadual Marcelo Freixo. Envolvido aleatoriamente na responsabilização indireta pela trágica morte do repórter cinematográfico da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, Freixo recebeu nesta segunda-feira (17) um ato de desagravo que lotou o Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciência Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro de militantes, políticos, juristas, artistas e lideranças religiosas.

A resposta de peso se deu justamente porque, entre todos os presentes, havia uma percepção de que a campanha liderada pelas Organizações Globo contra o parlamentar extrapolava não somente os limites éticos de uma cobertura jornalística, mas também buscava atingir o conjunto da população que reencontrou nas ruas um espaço privilegiado de realização da política.

O ato suprapartidário organizado por Luiz Eduardo Soares, Miriam Guindani e Julita Lemgruber se iniciou com um minuto de silêncio em memória a Santiago. Desde o ocorrido, a grande mídia repercutiu acusações do advogado Jonas Tadeu de que o deputado tinha “ligações” com os jovens acusados de acender o rojão que atingiu o cinegrafista.

Manchetes de capa do jornal O Globo, matérias no Jornal Nacional e no Fantástico deram conta de complementar a tese de que o PSOL e outras organizações de esquerda financiam e aliciam pessoas para provocar “vandalismo” nas manifestações. O impacto da denúncia foi tamanho que conseguiu unificar o discurso de publicações como a revista Veja – que publicou uma lista de doações de parlamentares e militantes a uma atividade beneficente de Natal – até de analistas, de outras matizes ideológicas, que criticaram o partido de conveniência com setores “violentos” dos movimentos.

As respostas aos ataques declarados e às críticas oportunisticamente colocadas vieram de vários setores da sociedade. Do músico Caetano Veloso, passando pelo humorista Gregório Duvivier (Porta dos Fundos) e chegando até o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que não só escreveram artigos manifestando indignação com a campanha difamatória mas também a reafirmando no ato de desagravo.

O peso representativo do ato não se resumiu somente aos artistas – estavam também Ivan Lins, Leandra Leal, Thaila Ayala, Clarissa Falcão e outros. Na mesa da atividade, o diretor executivo da Anistia Internacional, Átila Roque, afirmou que “o ataque que o Marcelo vem sofrendo é um ataque ao campo dos direitos humanos como um todo, à cidadania e à democracia”. “Neste momento é fundamental cerrarmos as nossas mãos pelo direito ao protesto”, completou. Leonardo Boff e Frei Betto não puderam estar presentes mas enviaram mensagens de apoio.

Representando a ala de juristas presentes no ato, o desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Ciro Darlan justificou sua presença dizendo que como parte da Justiça, não poderia dar as costas a um ato de injustiça que está sendo praticado. Já o ex-juiz e advogado Geraldo Prado, afirmou que sua solidariedade é a todo o campo democrático e a toda ação coletiva. “Expressões como ‘irresponsabilidade’ na cobertura da imprensa, na minha opinião, não refletem a realidade, porque irresponsabilidade rima com negligência, e na minha área o que é intencional não é negligente”, disse ao comentar a postura da grande mídia. E concordou com o colega que esta ação vem combinada com a criminalização do protesto e da contestação.

O deputado fez questão de reforçar suas ligações com o advogado Thiago Melo, que trabalha em seu mandato e foi um dos primeiros alvos das acusações por ser voluntário no Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH) – uma organização que presta assessoria jurídica às pessoas vítimas da violência de Estado, incluindo uma centena de manifestantes presos arbitrariamente nos atos. “A suspeita relação não é da Delta com o Governo. Nem da Odebrecht com o governo. É o DDH. O grande problema do Rio é o DDH, e não a cidade-negócio que se tornou o Rio de Janeiro”, ironizou o deputado, em crítica à imprensa e em defesa da entidade.

Entre dirigentes e figuras públicas do PSOL presentes, como Renato Cinco, Luciana Genro, Randolfe Rodrigues, Babá, Jean Willys, o jovem vereador de Niterói Henrique Vieira, que foi aluno de Freixo, também afirmou que o ato ultrapassava a solidariedade pessoal. “Nós estamos aqui lutando contra a criminalização dos movimentos sociais, lutando a favor da democracia real que é necessariamente não capitalista, lutando por esta efervescência social organizada em favor de uma verdadeira paz – que não é essa de um falso sossego que esconde a violência cotidiana”, disse.

No plenário da atividade ainda estavam presentes o pastor Pastor Mozart Noronha, Reverendo Daniel, Reverendo Tobias Farias, Isabel do Vôlei, Paulo Pinheiro, Eliomar Coelho, Gelsimar Gonzaga, Paulo Ramos (parlamentares do PSOL), Antônio Neiva (executiva do PT-RJ), Cyro Garcia (PSTU), e representantes do Observatório de Favelas, OcupaLapa, Casa Fluminense, Coletivo de Resistência Popular da Zona Oeste e do DCE UFRJ.

Sobre a acusação de que organizações de esquerda financiam militantes para irem às manifestações, o deputado afirmou ter “muito orgulho da juventude militante que está nas ruas e durante muitas campanha chegou a fazer uma camisa, por ironia do destino, dizendo: ‘eu tô na rua por ideal, não recebo um real’. Que ironia. Essa camisa existe há muito tempo porque, no nosso entendimento, se é pago perde seu caráter militante. Aliás, esta camisa é feita para nos diferenciar daqueles que sempre usaram o mecanismo de pagar para encher ônibus, os mesmos que hoje nos acusam”, concluiu Freixo.

Antiterrorismo
Boa parte das declarações de apoio ao parlamentar expressaram preocupação com o andamento da chamada Lei Antiterrorismo e outras propostas que estão sendo debatidas nas casas legislativas a fim de regulamentar as passeatas políticas. Segundo Freixo, “o fascismo saiu do armário no Brasil. E saiu com muita força. E a gente pode ter um retrocesso se não nos organizarmos”.

Depois de uma semana intensa de desgastes, o editorial d’O Globo publicado na manhã da segunda já alterava o tom das acusações. E assim também foi a cobertura do ato no próprio Jornal Nacional, que se encerrou com uma declaração encabulada da jornalista Patrícia Poeta ao dizer que compreende a indignação do deputado.

Freixo, no entanto, expressou em seu depoimento de encerramento que a Lei Antiterrorismo e a própria “CPI do Vandalismo” montada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro exigem uma resposta unificada dos movimentos sociais. “Sempre nos posicionamos contra a violência. Mas o grande violador dos direitos humanos é o Estado”, disse.

“O maior ato de solidariedade que vocês podem ter por mim é que a gente continue na luta, nas ruas, lutando inclusive contra essa legislação que estão tentando aprovar que é absolutamente fascista. Eu só fui atingido porque eles acreditam que, ao me atingir, atingem as manifestações. Estão errados. As manifestações são muito maiores do que qualquer pessoa porque elas são justas, porque as pautas não foram atendidas e porque a necessidade de transformação é muito maior do que qualquer partido e qualquer movimento específico”, concluiu enfaticamente.

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