I ENCONTRO DE PESQUISADORES DA PAN-AMAZÔNIA (EPPA)|POR UM SABER COMPROMETIDO E COMPARTILHADO

I ENCONTRO DE PESQUISADORES DA PAN-AMAZÔNIA (EPPA)O que? 

O I Encontro de Pesquisadores da Pan-Amazônia (I EPPA)é uma iniciativa situada no campo do conhecimentoque se soma ao processo de construção do VII Fórum Social Pan-Amazônico (VII FSPA). O I EPPA será realizado nos dias 26 e 27 de maio de 2014, portanto, antecedendo o VII FSPA que se realizará entre os dias 28 e 31 de maio, ambos na cidade de Macapá, Amapá – Brasil.

A Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) constitui-se comoa instituição âncora do I EPPA, que por meio de um grupo interdisciplinar de professores e pesquisadores compõem a comissão científica do evento. Igualmente, esta comissão local se estabelece a partir de um diálogo com outras instituições e pesquisadores que queiram somarna construção do IEPPA.

Por quê? 

I ENCONTRO DE PESQUISADORES DA PAN-AMAZÔNIA: POR UM SABER COMPROMETIDO E COMPARTILHADO 

“A luta pela libertação é, acima de tudo, um ato cultural” (Amílcar Cabral, 1973).

“É aqui que o intelectual coletivo pode desempenhar seu papel, insubstituível, contribuindo para criar as condições sociais de uma produção coletiva de utopias realistas. Pode organizar ou orquestrar a busca coletiva de novas formas de ação política, de novas maneiras de mobilizar e de trabalhar em conjunto com as pessoas mobilizadas…” (P. Bourdieu, 2001).

A Pan-Amazônia existe e é pensada de muitas maneiras e por diferentes agentes sociais. Entretanto, quem são os agentes dessa reflexão? Em que contextos históricos e culturais ela está sendo produzida? Quais dessas formas de pensamento são legitimamente reconhecidas e realizadas? Eis a problemática que conduz e movimenta a realização do I Encontro de Pesquisadores da Pan-Amazônia.

Em termos político-territoriais a Pan-Amazônia estácompreendida entre os seguintes países:Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, República Cooperativa da Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana (Francesa), formados por suas respectivas culturas, povos e movimentos sociais.Apesar disso, na sociedade em geral ou mesmo no âmbito acadêmico, existe um senso comum que está baseado nacolonialidade do saber e na hegemonia de algumas explicações científicas, que ainda projeta uma imagem reificada e naturalizada da Pan-Amazônia. Quase sempre, consta apenas o discurso biologizadoqueproduz uma dicotomia entre natureza e cultura, e invisibiliza a agencia de povos e culturas no tempo e no espaço.

É certo que ainda podemos falar sobrea grande riqueza natural de nossas terras, embora isso ocorra mediante o necessário e urgente enfrentamento de ações nocivas sobre biodiversidade e ecossistemas naturais, bem como, ao esgotamento das riquezas naturais de estatuto de uso coletivo entre as pessoas e sociedades. Deve-se ainda reconhecer que essa mesma biodiversidade foi secularmente manejada e construída pela açãode povos originários e tradicionais.

Portanto, entendemos que somos e estamos em um imenso e ancestral território pan-amazônico, construído e vivenciado por grupos sociais, povos e comunidades tradicionais da floresta, do campo e da cidade. Esses povos da Pan-Amazônia se autodeterminam através da afirmação de identidades coletivas – indígenas, quilombolas, extrativistas, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, entre outras – no âmbito da luta e defesa de seus territórios e riquezas naturais.

No devir de processos sociais de permanência e mudanças culturais, desde nosso passado pré-contato, do período colonial ao presente, o que (re)conhecemos por Amazônia na realidade representa e tem sido palco de construções humanas, embates políticos, destruições e perdas históricas, lutas e mobilizações sociais, resistências e expressões da diversidade étnico-cultural de diferentes grupos sociais.

Além disso, as mazelas sociais, as diásporas, deslocamentos compulsórios e demais opressões desencadeadas pelo fenômeno do colonialismo e da escravidão nas Américas, ainda não foram superadas, e mais, se mantêm por meio de formas contemporâneas de colonialidade e de exploração, ora renovadas e agravadas pelo avanço do capitalismo.

Nesse contexto, impõem-se interesses antagônicos aos dos povos e comunidades tradicionalmente estabelecidos na Pan-Amazônia, fazendo aflorar situações de negociações acirradas e de conflitos sociais generalizados, em face dos impactos das ações do Estado, das políticas neodesenvolvimentistas públicas e/ou privadas, de Empresas e Grandes Projetos econômicos e de infraestruturas.

Portanto, torna-se premente que essa gama de agentes sociais e identidades coletivas se mobilizem e se organizem politicamente por meio de movimentos sociais, para defender as suas culturas em inter-relação com a natureza. Assim, a cultura tem sido a força que movimenta diversos agentes e movimentos sociais na busca da sua autonomia e existência, da descolonização de sua própria história, o que tem sido referido enquanto “autoconsciência cultural” de povos em contextos pós-coloniais, como dizia o intelectual do movimento de libertação africano,Amílcar Cabral “a luta pela libertação é, acima de tudo, um ato cultural”.

Nesse interim, a realização do I EPPA tem entre seus objetivos articular e fortalecer uma rede de pesquisadores segundo uma dimensão estratégica da produção de conhecimento no âmbito da Pan-Amazônia e com algumas especificidades.

A primeira especificidade que podemos ressaltar na construção do I EPPA diz respeito à busca de uma sintonia e articulação com VII FSPA. Desde a sua primeira edição, o Fórum Social Pan-Amazônico tem sido um espaço de encontros e diálogos entre movimentos sociais, culturas, povos e comunidades tradicionais (r)existentes na Pan-Amazônia, possibilitando a visibilidade da diversidade sociocultural e étnica desta imensa região, ao mesmo tempo que movimentos sociais constroem coletivamente uma agenda política de mobilizações e reivindicações.

Nesse contexto de articulação e mobilização social, portanto, a segunda especificidade do I EPPA se apresenta estratégica através do necessário dialogo da academia com diferentes agentes sociais, com vistas à reflexividade crítica de nossas pesquisas acerca da(s) Amazônia(s) que fomos, somos e que queremos ajudar a construir. Trata-se da construção de condições de possiblidades ao engajamento da produção de conhecimento feita por pesquisadores, institucionalizados ou não, em causas sociais, bem como para a busca e reconhecimento de uma simetria entre os sistemas de conhecimento construídos na Pan-Amazônia por povos e comunidades tradicionais.

Embora tenhamos experiências significativas, a superação da secular violência epistêmica mantida pela própria academia e suas práticas de pesquisa, ainda é um desafio para pesquisadores e intelectuais que envolvem suas competências profissionais num combate político e causas sociais, sendoque, quando o fazem, não precisam abandonar as exigências formais da produção do conhecimento cientifico.

Por fim, vale ressaltar o próprio lugar de enunciação do I EPPA, ou seja, a partir de uma universidade pública que inserida no platô das Guianas busca se consolidar enquanto instituição acadêmico-cientifica envolvida e preocupada com seu contexto histórico e sociocultural.

Nesse sentido, o I EPPA reconhece e conclama pesquisadores e intelectuais, inclusive aqueles formados no seio de suas próprias culturas tradicionais, que estejam produzindo reflexões acerca da Pan-Amazônia para compartilha-las coletivamente.

Assim,o I Encontro de Pesquisadores da Pan-Amazônia, pensando e produzindo conhecimentos,abraça fraternalmente o Fórum Social Pan-Amazônico na esperança de construir uma aliançasolidaria de Pesquisadores, Povos e Lutas em busca de uma Pan-Amazônia livre de opressões e violências.

Como? 

O IEPPA está projetado para ocorrer em dois dias de atividades acadêmico-culturais, quais sejam: As conferencias magistrais – uma de abertura e outra de encerramento – que serão intercaladas com momentos de debates, socialização de pesquisas comprometidas e saberes compartilhados, por sua vez ampliados para atividades político-culturais.

Os momentos de debates serão realizadossob ótica e metodologia das atividades autogestionadas, em consonância com o VII FSPA.Essas atividades poderão ser propostas porgrupos acadêmicos ou de outras instituições, incluso aqueles oriundos de comunidades originárias e tradicionais,participantes do I EPPA.

Os debates, reflexões e encaminhamentos construídos nesses dois espaços de discussão serão socializados em um momento de culminância e deliberações conjuntas a ser realizado em antecedência a conferencia magistral de encerramento. 

Referencias:

ALMEIDA, A. W. B. Terras tradicionalmente Ocupadas: Processos de territorialização e movimentos sociais. Rev. B. Estudos Urbanos e Regionais 1(6): 9-32, 2004.

ANDERSON, B. R. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo, pp. 227-255. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

BHABHA, H. O Local da Cultura. Editado por Ana Maria de Moraes, pp.1-42; 70-104. Ed. UFMG, 2003.

BOURDIEU, P. Compreender, in A Miséria do Mundo. 3. ed. pp.693-732. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

______. Contrafogos 2: por um movimento social europeu. 1.ed. Portugal: Celta, 2001. 99p.

______. O Poder Simbólico. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

LANDER, E. A colonialidade do saber:eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

SAHLINS, M.D. Adeus aos tristes tropos: a etnografia no contexto da moderna historia mundial (1993), in Cultura na Pratica, pp. 501-532. Rio de janeiro: UFRJ, 2007 [1930].

SHIRAISHI, J. Direito dos Povos e das Comunidades Tradicionais no Brasil: declarações, convenções internacionais e dispositivos jurídicos definidores de uma política nacional. 2ª ed. Manaus: UEA Edições, 2010.

VELOZ, C.R. & ABRAMO, L. Introdução a Convenção 169 sobre povos indígenas e tribais em países independentes e Resolução referente a ação da OIT sobre Povos indígenas e tribais. 2ª ed. Brasília: Organização Internacional Trabalho, 2005.

Contato:

pesquisadoresdapanamazonia@gmail.com

26 e 27 de maio de 2014 – Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)

Macapá/Amapá/Amazônia/Brasil

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